Um levantamento divulgado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) nesta quinta-feira (24) acende um alerta importante: muitos responsáveis ainda enxergam a palmada como um método legítimo de disciplina, e não como uma agressão física. A pesquisa investigou os motivos que levam cuidadores a baterem em crianças na primeira infância.
Enquanto aguardava transporte em Brasília, a autônoma Andrea*, de 32 anos, refletia sobre o desafio diário de lidar com as birras do filho de 6 anos sem recorrer à violência. Ela relata que busca manter a paciência conversando com a criança, embora reconheça que o esgotamento emocional seja uma realidade frequente entre as mães solos na periferia.
Percepção distorcida da violência
De acordo com a especialista de proteção à criança do Unicef no Brasil, Luiza Teixeira, as famílias frequentemente diferenciam um tapa ou uma chinelada daquilo que consideram espancamento. Para grande parte dos entrevistados nas periferias do Rio de Janeiro, Recife e Manaus, a agressão física leve é vista erroneamente como uma ferramenta para colocar os pequenos na linha.
Apesar de o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) contar com diretrizes rígidas e da legislação conhecida como Lei da Palmada completar 12 anos, o estudo aponta que essas normas ainda circulam pouco. A falta de conhecimento e a reprodução de velhas normas sociais acabam silenciando as comunidades e naturalizando práticas abusivas dentro do ambiente doméstico.
Desenvolvimento infantil e alternativas
Especialistas reforçam que o cérebro infantil na primeira infância ainda está em fase de maturação, sem capacidade plena para autorregulação emocional. A psicóloga Mara Gomes ressalta que o uso de castigos físicos gera submissão ou revolta, além de passar uma mensagem perigosa sobre relacionamentos futuros baseados em agressão.
No ambiente escolar, educadores como a pedagoga Marília Paiva defendem que as chamadas birras devem ser interpretadas como pedidos de socorro e comunicação. O caminho apontado por especialistas envolve a regulação emocional do próprio adulto, o acolhimento do sentimento infantil e a imposição de limites saudáveis sem o uso de violência.