O Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef) cobrou dos candidatos à Presidência da República maior atenção à prevenção da violência infantil em suas plataformas de governo. Após analisar os planos eleitorais no Brasil, a entidade internacional alertou que a maioria dos presidenciáveis prioriza medidas de resposta e punição, ignorando ações preventivas essenciais para proteger crianças e adolescentes antes que as agressões aconteçam.
Segundo o representante do Unicef no Brasil, Joaquin Gonzalez-Aleman, é fundamental agir antecipadamente por meio da assistência social, saúde e educação. Para o especialista, o fortalecimento das famílias e a criação de sistemas integrados de identificação de riscos são pilares vitais para interromper o ciclo de abusos no país.
Propostas e soluções para o setor
Como alternativa, a organização defende a inclusão da parentalidade protetiva em programas sociais já existentes. A medida prevê a capacitação de agentes públicos que visitam as residências, orientando pais e cuidadores a adotarem práticas educacionais não violentas no cotidiano familiar.
Além disso, a entidade sugere a criação de uma Política Nacional de Prevenção de Violências contra Adolescentes. Essa diretriz articularia áreas de trabalho, emprego, saúde e educação, visando reduzir os fatores de risco associados à criminalidade sem depender unicamente da segurança pública.
Dados alarmantes do cenário nacional
O apelo do Unicef ocorre diante de dados estatísticos graves. No ano passado, 2.079 crianças e adolescentes foram vítimas de mortes violentas no Brasil, o que representa seis assassinatos diários. A grande maioria das vítimas é composta por jovens do sexo masculino e negros.
Registros do Anuário de Segurança Pública indicaram ainda mais de 38 mil casos de maus-tratos de menores em ambiente doméstico em 2025, número que mais que dobrou em relação ao ano anterior. Paralelamente, foram contabilizados 61 mil estupros de vulneráveis cometidos por pessoas conhecidas das vítimas.
Negligência às desigualdades e análise dos programas
A análise apontou que os planos tratam a infância de forma homogênea, ignorando fatores de raça, etnia, gênero e território. O Unicef criticou expressamente a falta de menções a crianças negras e indígenas, que enfrentam maior vulnerabilidade, além de citar a presença limitada de propostas para meninas e pessoas com deficiência.
Ao avaliar 178 registros nas propostas dos candidatos Lula, Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, a entidade notou abordagens distintas. Enquanto Flávio Bolsonaro e Romeu Zema priorizam a resposta penal, Ronaldo Caiado combina punição com prevenção intersetorial, e Lula foca prioritariamente em ações preventivas.