O sociólogo e ambientalista Miguel de Barros, da Guiné-Bissau, afirmou na última quinta-feira (30) que o Brasil sofre pressões e ataques de nações ricas interessadas no domínio de terras raras e recursos naturais. A declaração foi feita durante o 14º Congresso Brasileiro de Pesquisadores(as) Negros(as), realizado na Universidade de Brasília (UnB).
Segundo o cientista social de 46 anos, existe um novo projeto colonial liderado por países do Norte Global. Essa estratégia busca o monopólio de minerais estratégicos e de ecossistemas fundamentais, como a Amazônia, visando a fabricação de equipamentos tecnológicos, carros elétricos e instrumentos bélicos.
O especialista destacou que a posse dessas reservas confere poder geopolítico sobre a capacidade de produção de alimentos, energia e água. Para Barros, grandes corporações utilizam estruturas econômicas consolidadas desde o período da colonização para manter o domínio sobre terras e populações vulneráveis.
Avanço tecnológico e inteligência artificial
O pesquisador também alertou para os riscos do controle das novas tecnologias. Segundo ele, o avanço da inteligência artificial tem servido como ferramenta de apropriação do conhecimento e do patrimônio de povos negros e comunidades tradicionais, substituindo a força humana por mecanismos automatizados.
Diante desse cenário, Barros defendeu a criação de uma rede de suporte tecnológico voltada às populações marginalizadas. Essa infraestrutura seria crucial para rebater o uso pejorativo ou dominador das tecnologias, inclusive na biomedicina.
Impactos na saúde e racismo estrutural
Durante a conferência, o sociólogo criticou a gestão global de saúde no período da pandemia. Ele relembrou a falta de cooperação com o continente africano, ressaltando que barreiras econômicas impediram a transferência de vacinas e medicamentos de forma equitativa.
Para o acadêmico, o modelo neocolonialista impõe uma seletividade sobre o direito à vida, fundamentada no racismo. Diante disso, ele reforçou a importância do resgate dos saberes tradicionais e do apoio do poder público para assegurar a autonomia e a emancipação das populações afetadas.