Espaço para comunicar erros nesta postagem
Em um marco significativo, o Brasil completou um ano desde sua saída do Mapa da Fome em julho de 2025, um feito que reduziu a população em risco de subnutrição ou acesso insuficiente a alimentos para menos de 2,5%. Contudo, a persistência da insegurança alimentar grave ainda afeta aproximadamente 6,5 milhões de brasileiros, sublinhando a necessidade de políticas públicas eficazes e contínuas para erradicar definitivamente o problema.
Mesmo com a saída do Mapa da Fome, o cenário atual revela que aproximadamente 6,5 milhões de indivíduos no Brasil enfrentam insegurança alimentar grave. A sustentabilidade desse avanço, conforme apontam especialistas, está intrinsecamente ligada à implementação de políticas públicas duradouras que abranjam áreas cruciais como emprego, geração de renda, saúde, educação e, claro, a própria segurança alimentar.
Embora o patamar atual represente o menor índice na série histórica de combate à fome, a Agência Brasil ouviu especialistas que enfatizam a urgência de intensificar as ações.
A segurança alimentar, definida como o acesso regular, permanente e adequado a alimentos saudáveis e de qualidade, é uma realidade para 77% da população brasileira, excluindo aqueles em situação mais crítica.
Lucas de Almeida Moura, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia Combate à Fome, vinculado à Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo, salienta a importância de estabelecer mecanismos que confiram permanência às estratégias bem-sucedidas na redução da insegurança alimentar no país.
“Termos alcançado esse marco, pela segunda vez, de saída do Mapa da Fome, é resultado de uma intersetorialidade muito forte entre as políticas públicas. Isso precisa de fato ser mantido e, mais do que mantido, aprimorado”, afirma Moura.
O especialista detalha que o enfrentamento da insegurança alimentar vai além da mera disponibilização de alimentos. Ele exige a construção e preservação de uma estrutura abrangente que assegure o acesso adequado à nutrição.
Essa estrutura complexa engloba a garantia de renda mínima, acesso à educação, saneamento básico, segurança pública e oportunidades de emprego.
Lucas Moura é o idealizador do Índice Multidimensional de Insegurança Alimentar (MUFII), uma ferramenta inovadora para medir a insegurança alimentar no Brasil de forma multidimensional. O primeiro levantamento do MUFII, que cobre o período de 2018 a 2022, foi divulgado em janeiro deste ano.
Os achados do MUFII, sigla em inglês para o índice, foram publicados na renomada revista Sustainability. A metodologia da pesquisa avalia a fome com base em 12 indicadores de Desenvolvimento Sustentável, permitindo uma análise comparativa anual.
Os resultados de 2022 indicaram uma deterioração do cenário nacional, com os menores índices médios de insegurança alimentar multidimensional observados em Santa Catarina. Em contraste, Maranhão, Acre e Amazonas apresentaram os maiores valores.
A pesquisa revela que a maioria dos estados das regiões Norte e Nordeste do Brasil registra níveis superiores a 50% de insegurança alimentar multidimensional. Os pesquisadores planejam atualizar o índice para os anos subsequentes a 2022.
Políticas públicas
Valéria Burity, secretária Extraordinária de Combate à Pobreza e à Fome do Ministério do Desenvolvimento Social (MDS), enfatiza que a meta primordial é assegurar que todos os brasileiros tenham acesso a uma alimentação de qualidade, reconhecendo-a como um direito fundamental.
“Essa é uma meta de longo prazo de impacto: a gente garantir direito à alimentação adequada saudável como um direito para toda a população brasileira”, declara Burity.
O Plano Brasil sem Fome se destacou como uma das iniciativas mais impactantes para essa redução, articulando políticas econômicas e de proteção social.
O plano impulsionou a agricultura familiar, promoveu reajustes na alimentação escolar, ofereceu suporte a cozinhas comunitárias e estabeleceu diretrizes para assegurar proteção social, trabalho, renda e acesso a uma alimentação adequada.
A secretária Burity ressalta que a prioridade atual consiste em integrar os indivíduos ainda em risco de insegurança alimentar em políticas públicas. Para isso, o Ministério do Desenvolvimento Social (MDS) apoia estados e municípios para que repliquem e ampliem essas ações.
Três pilares
A professora Semíramis Domene, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e diretora do Instituto Fome Zero (IFZ), aponta que três movimentos cruciais foram responsáveis por reconduzir os índices de fome a patamares historicamente baixos.
O primeiro pilar foca em mecanismos para reduzir a desigualdade. “Se o acúmulo de riqueza e desigualdade estão na raiz da fome, combater a desigualdade está na raiz do caminho para sair dela”, afirma Domene.
Políticas de emprego e renda desempenharam um papel crucial nesse processo. “Atualmente, registramos o menor índice de desemprego em 13 anos, e o salário mínimo teve reajustes superiores a 6% a partir de 2022”, explica a diretora. “Nessa dimensão de combater a desigualdade, obtivemos grande sucesso.”
A segunda frente de atuação concentrou-se no fortalecimento das políticas públicas de proteção social. Isso envolveu não apenas a redução da desigualdade via emprego, mas também a geração de mais postos de trabalho, aumento da renda e o reforço do Sistema Único de Saúde (SUS).
No contexto do Bolsa Família, os resultados são encorajadores, indicando que as famílias beneficiárias conseguem progredir para o mercado de trabalho e melhorar a escolarização de suas crianças. “Muitas famílias deixam o Bolsa Família justamente por melhorarem sua condição familiar”, observa Domene.
Ela também destaca os avanços com o Cadastro Único, que passou por modernização em 2025, e a eficácia do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).
A terceira frente, igualmente vital para a saída do Mapa da Fome, concentra-se nas ações relacionadas à produção e abastecimento de alimentos. Isso inclui o fortalecimento das políticas de incentivo à agricultura familiar, setor que desempenha papel crucial na oferta de alimentos frescos para a população.
Para a diretora do Instituto Fome Zero, o resgate e fortalecimento do Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), que antes se encontrava praticamente inativo e sem financiamento, tem sido essencial para a agricultura familiar. “É fundamental discutir o abastecimento sob a ótica do alimento como função social, e não da terra como um mero bem para o mercado internacional de commodities”, defende.
Insegurança alimentar
Daniel Duque, economista e pesquisador associado do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), também sublinha o papel central do Bolsa Família na diminuição da fome no Brasil. Ele argumenta que a expansão da assistência de renda possibilitou que milhões de famílias recuperassem seu poder de compra.
Duque aponta ainda que a desaceleração dos preços dos alimentos em relação à inflação geral, observada a partir de 2023 e mantida em 2024 e 2025, foi crucial. As boas safras nacionais contribuíram para o controle desses preços.
Paralelamente, a significativa melhoria do mercado de trabalho no mesmo período impulsionou o avanço da situação social no Brasil.
Para que o Brasil consiga se manter fora do Mapa da Fome e continue a reduzir os índices de insegurança alimentar, é imperativo preservar um cenário favorável no mercado de trabalho. “Até o momento, não há indicativos de reversão na tendência de emprego”, conclui Duque.