A investigação da Polícia Federal sobre o esquema investigado de desvio e circulação de recursos no Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE-MT) identificou 6 pessoas que, segundo a representação policial, teriam desempenhado funções específicas na estrutura investigada. O grupo seria formado por um núcleo de comando, articuladores financeiros e jurídicos e pessoas responsáveis por sacar, transportar e movimentar dinheiro em espécie. O presidente do órgão, Sérgio Ricardo, é tratado como o líder do esquema criminoso.
Na decisão que analisou os pedidos de prisão preventiva, o ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), destacou que os investigados não seriam apenas beneficiários dos valores, mas teriam participado de diferentes etapas da dinâmica descrita pela Polícia Federal, que deflarou na manhã desta quinta-feira (28) a Operação Tomada de Contas. Todos os citados abaixo foram presos.
Segundo a PF, Sérgio Ricardo seria o responsável por liderar uma estrutura que contaria com operadores financeiros para converter em dinheiro vivo valores supostamente desviados dos cofres da instituição. A corporação ressalta que a análise bancária considerada na representação abrangeu o período de 1º de janeiro a 22 de outubro de 2025, totalizando 294 dias, e apontou movimentação de R$ 75.858.726,27 considerada suspeita.
A investigação também analisou medidas administrativas que suspenderam contratos do tribunal em 2024. A Portaria nº 126, de 5 de agosto daquele ano, determinou a suspensão temporária dos contratos vigentes por 90 dias, incluindo pagamentos e outras verbas contratuais, com exceções para serviços essenciais e contratos que a Presidência considerasse fora da medida. Em outubro, a Portaria nº 172 prorrogou a suspensão até 31 de dezembro de 2024.
Apesar das medidas, a Polícia Federal identificou 1.624 pagamentos realizados a 94 empresas ao longo de 2024. Desse total, 55 empresas teriam recebido recursos antes e depois da publicação da portaria, enquanto 21 deixaram de receber pagamentos após a determinação.
Veja abaixo as funções e indícios do esquema:
Sérgio Ricardo de Almeida, presidente do TCE-MT, é apontado pela PF como responsável pelo comando da estrutura. Segundo a investigação, ele teria utilizado o poder de gestão no Tribunal para autorizar contratos, expedir portarias, nomear ocupantes de cargos estratégicos e influenciar setores envolvidos nos pagamentos. A polícia afirma que ele estaria à frente de um grupo de operadores financeiros encarregado de transformar recursos públicos em dinheiro vivo. A decisão cita movimentações suspeitas de R$ 75,8 milhões no período analisado e aproximadamente R$ 15,6 milhões em saques em espécie atribuídos a Sérgio Ricardo.
Grhegory Paiva Pires Moreira Maia, consultor jurídico-geral do TCE-MT, é apontado como um dos principais articuladores do esquema e o maior destinatário individual dos recursos investigados. Conforme a decisão, ele teria recebido cerca de R$ 32,3 milhões, distribuídos em diversas contas bancárias. A investigação também atribui a ele atuação na articulação jurídica e financeira, além da possível utilização de empresas para ocultar valores. Grhegory teria constituído uma holding familiar e uma empresa ligada à criação e comercialização de cavalos, que são mencionadas na apuração sobre o destino do dinheiro.
Gustavo Fernandes da Silva, assistente jurídico comissionado subordinado a Grhegory, é descrito como operador financeiro. Segundo a PF, ele teria recebido aproximadamente R$ 15,9 milhões e participado diretamente de operações bancárias e saques. Imagens de uma agência do Sicoob instalada nas dependências do Tribunal mostram Gustavo em diferentes movimentações, algumas realizadas após o recebimento de ordens bancárias. A investigação aponta que ele atuaria na conversão dos valores em dinheiro vivo.
Felipe José Glinke, assessor jurídico da Presidência do TCE-MT, também é apontado como operador financeiro. De acordo com a investigação, ele teria recebido cerca de R$ 9,9 milhões e participado de episódios de saque e manuseio de dinheiro. A decisão cita imagens em que Felipe aparece em operações bancárias e relata uma situação na qual ele teria aguardado a saída de uma pessoa que estava próxima aos caixas antes de receber o numerário. A PF também menciona uma operação em que parte do dinheiro teria sido devolvida à funcionária da agência.
Roseli Loss, chefe de gabinete de Sérgio Ricardo, é descrita como uma das principais responsáveis pela execução dos saques. Segundo a PF, ela seria pessoa de confiança do presidente do Tribunal e teria operado contas vinculadas a ele, inclusive antes de se tornar procuradora bancária. A investigação atribui a Roseli saques que somam R$ 3,5 milhões, parte dos quais teria sido entregue a Adriangelo Barros Antunes. A decisão também cita operações realizadas com contas das quais ela não seria titular.
Adriangelo Barros Antunes, secretário- executivo de comissão permanente do TCE-MT e ex-cunhado de Sérgio Ricardo, é apontado como responsável pelo transporte e pela circulação física do dinheiro. Conforme a investigação, ele teria recebido valores sacados por Roseli e levado o numerário para as dependências do Tribunal. A decisão menciona imagens de uma pessoa com características compatíveis com Adriangelo entrando em uma agência bancária com uma mochila vazia e saindo com ela aparentemente carregada. Ele também teria recebido cerca de R$ 2,2 milhões a partir de setembro de 2025.