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A migração de diversos processos administrativos e canais de participação social para o ambiente online nos últimos anos reduziu o tempo e aumentou a eficiência de processos burocráticos governamentais. No entanto, também criou uma barreira adicional em um país onde parte da população ainda não tem acesso pleno à internet. De acordo com a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do IBGE, 20,5 milhões de brasileiros com 10 anos ou mais não utilizavam a internet em 2024, o que representa 10,9% desse grupo. Destes, 45,6% declararam não saber usar a internet, o que reforça que a falta de acesso e de habilidades digitais constitui um obstáculo ao exercício pleno da cidadania.
“A exclusão digital compromete diretamente o exercício da cidadania na sociedade contemporânea. Quando parte da população permanece desconectada ou possui acesso limitado à tecnologia, cria-se uma barreira adicional para o acesso a direitos e políticas públicas. Nesse sentido, a inclusão digital se torna um elemento fundamental para garantir participação cidadã plena”, afirma Fernando Eduardo Cardoso, pós-doutor em Administração e coordenador do curso de Gestão Pública da UNIASSELVI.
A consequência da exclusão digital vai além da relação com o Estado. No mercado de trabalho, a desigualdade digital limita o acesso a oportunidades e reduz as chances de ascensão profissional. Em uma economia cada vez mais tecnológica, estar desconectado significa largar atrás.
“Jovens e trabalhadores que possuem acesso limitado à internet ou a dispositivos tecnológicos enfrentam maiores dificuldades para desenvolver habilidades digitais, participar de cursos online ou acessar oportunidades profissionais. Esse cenário pode reduzir significativamente suas possibilidades de mobilidade social. Além disso, a desigualdade digital também afeta o acesso à informação e a serviços públicos que hoje são cada vez mais ofertados em plataformas digitais. Isso pode criar uma nova forma de exclusão, na qual determinados grupos sociais têm menor capacidade de acessar oportunidades disponíveis”, explica o professor.
Caminhos para a inclusão
O coordenador do curso de Gestão Pública da UNIASSELVI aponta que políticas públicas são fundamentais para ampliar a infraestrutura digital, sobretudo em regiões onde o investimento privado é limitado. “Programas de expansão da conectividade, incentivos regulatórios e parcerias público-privadas podem contribuir para levar acesso à internet a áreas menos atendidas. Mas, além da infraestrutura física, é fundamental investir também em inclusão digital e formação em competências tecnológicas. O acesso à conectividade precisa estar acompanhado de políticas educacionais que permitam à população utilizar essas ferramentas de forma produtiva e cidadã”.
Segundo ele, embora a desigualdade de renda continue sendo um fator central de desequilíbrio social, a desigualdade digital tem se consolidado como um novo eixo estruturante das desigualdades sociais contemporâneas. “Até porque, em muitos contextos, quem possui menor renda também enfrenta maiores dificuldades de acesso à infraestrutura digital e à formação tecnológica. Por isso, a inclusão digital precisa ser compreendida como parte das políticas de redução de desigualdades sociais”, ressalta.