O Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) negou qualquer alteração nos critérios de correção da redação do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), ao mesmo tempo em que revelou estar avaliando o emprego de inteligência artificial (IA) para acelerar a divulgação das avaliações pedagógicas. Essa declaração foi feita na quarta-feira (10), durante uma audiência pública na Comissão de Educação da Câmara dos Deputados, motivada por questionamentos de estudantes sobre a transparência e supostas inconsistências nas notas da edição de 2025.
O debate na Câmara, solicitado pelo deputado Túlio Gadelha (PSD-PE), surgiu em decorrência das preocupações expressas por estudantes. Eles apontaram para possíveis inconsistências matemáticas nos boletins de desempenho e levantaram a hipótese de mudanças nas orientações internas do exame.
Esclarecimentos sobre a correção da redação
Eduardo Carvalho Sousa, diretor de Avaliação da Educação Básica do Inep, assegurou que a matriz de referência utilizada para a correção da redação do Enem permanece inalterada desde 2009. Ele esclareceu que a percepção de maior rigor se deve, na verdade, a uma intensificação na fiscalização de textos que utilizam modelos padronizados.
"Existe uma verdadeira indústria de redações pré-fabricadas, onde os candidatos apenas substituem algumas frases. O que implementamos foi um controle mais rigoroso sobre essas redações 'pré-prontas'", explicou Sousa, justificando a medida.
Sousa também detalhou o processo de avaliação, informando que os corretores passam por treinamento específico. Cada redação é submetida à análise de dois profissionais distintos, que atuam de forma independente e desconhecem a pontuação atribuída pelo colega. Caso a diferença entre as notas exceda 80 pontos em qualquer competência, o sistema automaticamente direciona o texto para uma nova análise.
Inteligência artificial para agilizar resultados
Em um movimento para modernizar e agilizar seus processos, o Inep anunciou o início de uma prova de conceito com empresas de tecnologia. O objetivo é avaliar a viabilidade do uso da inteligência artificial (IA) no sistema de correção. Essa iniciativa visa, principalmente, encurtar o tempo de espera pela folha espelho e pela avaliação pedagógica da redação, que hoje são liberadas aproximadamente 60 dias após as notas oficiais.
A demanda por maior transparência
Representantes estudantis reforçaram a necessidade de que os critérios de correção da redação do Enem sejam apresentados de forma mais clara aos participantes. Letícia Holanda, diretora de Relações Institucionais da União Nacional dos Estudantes (UNE), salientou a dificuldade de muitos jovens, especialmente aqueles de regiões periféricas, em compreender os editais e documentos do exame.
Para Holanda, uma compreensão mais aprofundada dos critérios de avaliação não apenas auxilia os estudantes no planejamento de seus estudos, mas também fortalece a confiança no processo seletivo como um todo.
A diretora da UNE também expressou cautela em relação à implementação de novas tecnologias, como a inteligência artificial. "O emprego da tecnologia deve ser acompanhado de controle público e social para garantir o fortalecimento da transparência. Sem isso, a IA pode se tornar prejudicial, reforçando vícios e padrões já existentes nas redações", alertou Letícia Holanda.
Paulo Henrique Viana, presidente da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), defendeu a criação de mecanismos mais acessíveis para a contestação das notas. Ele propôs que a folha espelho se torne uma ferramenta mais eficaz, permitindo que o estudante identifique claramente seus erros ou inconsistências na correção e tenha um canal formal para apresentar essas observações ao Inep. Em resposta, Eduardo Carvalho Sousa indicou a plataforma Fala BR como o canal oficial para o registro de demandas.
O papel da redação e a integração de sistemas
Representando o Conselho Nacional de Secretários de Educação (Consed), Lorena Pantaleão da Silva, coordenadora de educação digital do Paraná, ressaltou a importância da redação na formação dos estudantes. Para ela, o Enem transcende a mera avaliação, estimulando a cidadania, o pensamento crítico e a capacidade argumentativa.
Silva também apontou que a integração entre o Enem e o Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) pode oferecer um suporte valioso às secretarias estaduais. Essa medida permitiria um monitoramento mais eficiente do ensino médio e um acompanhamento aprofundado dos resultados de aprendizagem.