Em uma recente audiência na Comissão de Administração e Serviço Público da Câmara dos Deputados, especialistas e membros da sociedade civil defenderam veementemente o fortalecimento das ouvidorias externas das defensorias públicas, ressaltando sua importância crucial para a efetividade da assistência jurídica gratuita e para o controle social no Brasil.

Essas ouvidorias representam pilares fundamentais para o controle social, a promoção da transparência e a efetiva participação da sociedade civil. Seus ouvidores externos são selecionados a partir de uma lista tríplice, com a ativa colaboração de entidades da sociedade, garantindo que não pertençam à carreira institucional da Defensoria Pública.

Instituições estatais criadas pela Constituição de 1988, as defensorias públicas têm como missão primordial assegurar assistência jurídica integral e gratuita à população que não dispõe de meios para arcar com os custos de um advogado. Elas desempenham um papel vital na defesa de direitos individuais e coletivos, além de atuarem ativamente na promoção dos direitos humanos.

Leia Também:

Maria Aparecida Lucca Caovilla, presidente do Conselho Nacional de Ouvidorias Externas das Defensorias Públicas do Brasil, salientou que, apesar de sua relevância inegável, essas ouvidorias enfrentam sérias carências. Ela apontou a ausência de orçamento próprio, de sedes adequadas e a falta de recursos humanos dedicados.

Caovilla detalhou que o modelo brasileiro de ouvidorias gerais externas é único, sendo seus membros selecionados por meio de movimentos sociais. São lideranças comunitárias e ativistas de direitos humanos que assumem essas posições, com a missão de representar a sociedade e, especialmente, as pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Ela também lamentou a grande disparidade na atuação das ouvidorias estaduais, que, embora presentes, carecem da estrutura indispensável para garantir a efetividade desejada em suas operações.

Atualmente, o Brasil conta com 20 ouvidorias externas em pleno funcionamento, abrangendo as defensorias públicas de 18 estados, além das instituições do Distrito Federal e da União.

O controle social na Defensoria Pública

A deputada Fernanda Melchionna (Psol-RS), proponente do debate, enfatizou que a presença de uma ouvidoria externa na Defensoria Pública constitui uma forma essencial de controle social. Ela ressaltou que, por seus titulares não fazerem parte da carreira institucional e serem eleitos por movimentos sociais populares, evita-se o elemento corporativo, tornando-a "o único órgão do sistema judicial com controle externo".

Luciana Grando Bregolin Dytz, presidente da Associação Nacional de Defensoras e Defensores Públicos Federais, reforçou a ideia, afirmando que a Justiça permanecerá elitista enquanto não houver ouvidorias disseminadas por todo o sistema.

Contudo, oito estados ainda não possuem ouvidorias externas em suas defensorias públicas: Espírito Santo, Sergipe, Alagoas, Tocantins, Mato Grosso do Sul, Amazonas, Roraima e Rio Grande do Norte. Em contraste, a Defensoria Pública da União já dispõe de uma Ouvidoria-Geral, igualmente formada por representantes da sociedade civil.

Desafios na presença de defensores públicos

Luciana Dytz também trouxe à tona a questão da carência de defensores públicos. Ela recordou que a Emenda Constitucional 80 exige que União, estados e Distrito Federal assegurem a presença desses profissionais em todas as unidades jurisdicionais, proporcionalmente à demanda e à população. A realidade, porém, é distante: a Defensoria Pública da União, por exemplo, atua em apenas 78 das 276 subseções judiciárias federais.

Apoio a projeto de lei para autonomia orçamentária

Em busca de soluções concretas, Maria Aparecida Lucca Caovilla expressou apoio ao Projeto de Lei Complementar (PLP 138/26), atualmente em análise no Senado. A proposta visa modificar a Lei de Responsabilidade Fiscal, permitindo que até 2% da receita corrente líquida das unidades federativas seja direcionada ao orçamento das defensorias públicas, garantindo-lhes assim maior autonomia financeira.

Este projeto também tem como objetivo crucial prevenir cortes orçamentários severos que possam comprometer o sistema de assistência jurídica gratuita. Para avançar, a medida depende primeiramente da aprovação dos senadores, antes de seguir para a análise da Câmara dos Deputados.

FONTE/CRÉDITOS: Agência Câmara Notícias