A recente implementação da criptografia no Discord tornou-se alvo de contestação da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD) no Brasil. Em agosto de 2026, o órgão determinou a suspensão preventiva de transmissões ao vivo na plataforma após a morte de uma jovem em Naviraí (MS), alegando que a codificação viola exigências de segurança do ECA Digital.
A ferramenta de codificação de ponta a ponta foi ativada globalmente pouco antes da entrada em vigor do estatuto, em março de 2026. A empresa afirma que o recurso visa garantir a privacidade dos usuários. No entanto, a ANPD reforça que a medida impede a auditoria e o controle parental exigidos pela legislação brasileira para menores de 18 anos.
Diante do cenário, a fiscalização da agência apontou que a plataforma adotou um desenho de produto menos seguro justo no momento de vigência das novas regras de proteção. A medida busca conter casos de violência e coação virtual contra crianças e adolescentes.
Operação Lívia
O caso registrado em Mato Grosso do Sul desencadeou a Operação Lívia, liderada pela Polícia Civil e pelo Ministério da Justiça. A investigação apura a atuação de uma organização criminosa focada em atrair jovens para comunidades virtuais e induzi-los à automutilação, violência extrema e autoextermínio.
A primeira fase da ação policial resultou na apreensão de cinco adolescentes e na prisão de um homem de 18 anos. Além de Mato Grosso do Sul, foram cumpridos mandados de busca em quatro estados: Ceará, Minas Gerais, Pará e Rio de Janeiro.
Segundo a ANPD, mais de 200 pessoas assistiram à transmissão da jovem. Para a agência, o Discord deve apresentar soluções tecnológicas substitutivas e efetivas, em vez de alegar incapacidade de monitorar as transmissões em tempo real.
Denúncias em alta
A preocupação com o aplicativo também se reflete nos números da SaferNet Brasil. Entre janeiro e julho de 2026, as denúncias envolvendo o Discord subiram 54% em relação ao mesmo período de 2025, saltando de 264 para 406 notificações formais.
Procurada pela reportagem, a empresa não respondeu sobre os questionamentos regulatórios. Em posicionamentos anteriores, a plataforma declarou que não tolera a promoção da violência, mantendo equipes dedicadas a colaborar com autoridades para punir infratores.
Onde buscar apoio
Adolescentes e familiares que enfrentam momentos difíceis ou pensamentos autodestrutivos devem buscar ajuda na rede de saúde pública ou no Centro de Valorização da Vida (CVV), que oferece atendimento gratuito e confidencial pelo telefone 188, além de chat e e-mail 24 horas por dia.