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Anualmente, as ruas de Madureira, no subúrbio carioca, ganham vida com uma explosão de cores em celebração ao orgulho LGBTI+. Organizar este evento, que harmoniza a festividade com a militância por direitos, implica em desafios que transcendem a simples montagem de trios elétricos na via pública.
Para garantir a segurança de todos os participantes, é indispensável remover o complexo emaranhado de cabos que interligam os postes do bairro. Em caso de chuva, toda a logística é interrompida, e a manifestação precisa se adaptar às restrições do ambiente.
“A situação não se compara à de Copacabana, na Avenida Atlântica, onde os trios podem ser equipados com coberturas contra a chuva e seguir o desfile sem preocupações. Madureira apresenta outras dificuldades”, esclarece Rogéria Meneguel, presidente e organizadora da Parada LGBT+ de Madureira.
“Houve um ano em que choveu intensamente e a Parada não conseguiu prosseguir. Ela ficou, literalmente, imobilizada. Desde o ano passado, realizamos o evento dentro do Parque de Madureira para contornar essas questões”, complementa.
Assim como as diferenças entre bairros, municípios de menor porte enfrentam problemas distintos em comparação com a capital fluminense. O Encontro Estadual de Paradas do Orgulho LGBTI+, agendado para este sábado (25) no centro do Rio, visa aprimorar a troca de experiências entre as lideranças de diferentes localidades.
“É crucial que as grandes cidades ofereçam apoio e suporte político, institucional e cultural às cidades com maiores dificuldades”, destaca Cláudio Nascimento, presidente do Grupo Arco-Íris, responsável pela organização da Parada de Copacabana.
“O que funcionou para um pode servir de inspiração para outro. Nos reunimos para debater em conjunto as principais pautas da comunidade. Unidos, ampliamos nossas vozes e conferimos maior visibilidade às nossas lutas”, acrescenta.
Desafios das cidades do interior
Contudo, as questões não se limitam apenas à estrutura e logística. Organizar uma Parada também envolve confrontar uma reação conservadora que busca restringir os direitos e as reivindicações da população LGBTI+.
O presidente do coletivo Arraial Free, Rafael Martins, que organiza a manifestação em Arraial do Cabo, na Região dos Lagos, relata que os últimos 14 anos foram de uma batalha contínua para levar o movimento às ruas.
“O município ainda possui muitas pessoas preconceituosas, sabe? Mas estamos resistindo e mostrando para nossa região, que é bastante conservadora, que existimos, estamos presentes e que necessitamos de políticas públicas para a população LGBTI+”, afirma Rafael.
Ele detalha como as vivências de seu município podem enriquecer o debate coletivo.
“Mobilizamo-nos, antes mesmo da Parada, junto aos comerciantes para solicitar apoio e patrocínio. Contamos com parceiros na hotelaria e em mercados. Às vezes, é apenas um engradado de água, mas que já ajuda muito. O que tento transmitir a todos é que não é preciso focar exclusivamente na Prefeitura, no apoio institucional. Podemos também unir forças com quem está ao nosso lado e progredir juntos”, explica Rafael.
Fórum de colaboração
Pelo menos 35 municípios estão representados no evento, que não ocorria há uma década. A organização é do Grupo Arco-Íris de Cidadania LGBTI+, com o suporte do Programa Estadual Rio Sem LGBTIfobia, da Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos, do Teatro Carlos Gomes e da Secretaria Municipal de Cultura.
Ao longo do dia, rodas de debate abordam temas como: a estrutura institucional e a viabilidade dos eventos; a organização prática das Paradas; engajamento social e voluntariado; apoios e patrocínios; promoção de direitos e sustentabilidade ambiental, e agendas socioculturais.
Também está prevista a elaboração coletiva do calendário estadual das Paradas, visando fortalecer as estratégias de cooperação entre as regiões e ampliar a visibilidade das mobilizações.
As Paradas de Arraial do Cabo e de Copacabana, por exemplo, já tiveram suas datas definidas: ocorrerão em 13 de setembro e 22 de novembro, respectivamente. A de Madureira ainda não foi confirmada, mas a expectativa é que aconteça também em novembro.
A plenária final do encontro prevê a formulação de 25 recomendações para fortalecer os movimentos, estabelecer prioridades de incidência política e propor diretrizes para uma nova reunião entre os territórios.
“Fico muito satisfeito em observar este movimento expandir-se por todo o país. Atualmente, mais de 500 cidades brasileiras realizam Paradas. Proporcionalmente, o Rio de Janeiro é o estado com o maior número, considerando que temos 92 municípios e mobilizações em 38 deles”, comenta Cláudio Nascimento.
“É um período de grandes desafios, com muitas tentativas de cercear a liberdade de expressão e os movimentos sociais LGBT+ nas cidades. Continuamos nosso trabalho para fortalecer a nossa rede”, conclui.