Uma pesquisa recente, divulgada nesta quarta-feira (6) pela Fundação Carlos Chagas (FCC) em parceria com o Ministério da Educação (MEC), revela que a maioria dos gestores de escolas públicas – 71,7% – enfrenta consideráveis desafios para dialogar sobre o enfrentamento à violência escolar, incluindo questões como bullying, racismo e capacitismo. Este dado alarmante, o maior desafio identificado no estudo, visa subsidiar o novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, uma iniciativa federal que será lançada na quinta-feira (7).

A complexidade do ambiente contra a violência

Para Adriano Moro, pesquisador do Departamento de Pesquisas Educacionais da FCC e coordenador do estudo, a abordagem de situações de violência é intrinsecamente complexa, demandando preparo adequado, suporte institucional e estratégias de ação minuciosamente planejadas.

Ele destaca, como um entrave particular, a naturalização de atos violentos.

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"Em certas circunstâncias, adultos no ambiente escolar interpretam agressões como meras 'brincadeiras'. Tal percepção minimiza a seriedade dos incidentes e pode resultar em omissão, precisamente no momento em que os estudantes mais necessitam de amparo e intervenção", afirmou Moro em entrevista à Agência Brasil.

Moro também contextualiza que diversas escolas operam em cenários externos já permeados pela violência. Adicionalmente, a dificuldade em engajar famílias e a comunidade escolar intensifica a pressão sobre as instituições de ensino, que acabam por enfrentar esses desafios de forma isolada.

A compreensão do bullying

Outro ponto de dificuldade, segundo Adriano Moro, reside na utilização genérica do termo bullying.

"O bullying é um fenômeno com características próprias, uma forma de violência grave que exige atenção. No entanto, quando não é corretamente identificado, a violência vivenciada pode mascarar problemas específicos, como racismo, capacitismo, xenofobia ou violência de gênero", explica.

Originário do inglês, o termo bullying descreve uma modalidade de violência física ou psicológica, frequentemente reiterada, que provoca danos físicos, sociais e emocionais na vítima. Agressores, individualmente ou em grupo, empregam xingamentos, apelidos depreciativos e outras táticas de intimidação, humilhação, agressão ou discriminação.

O representante da FCC enfatiza que um clima escolar positivo é crucial para o enfrentamento da violência escolar, pois estabelece as condições para que a instituição de ensino transcenda a atuação meramente reativa, adotando uma postura mais preventiva, intencional e colaborativa.

"Quando prevalecem a confiança, o respeito mútuo e a escuta ativa entre estudantes e adultos, torna-se mais simples identificar problemas, classificar corretamente as violências e intervir com maior responsabilidade e justiça", pontua Moro.

Outras constatações do levantamento

A pesquisa, que buscou compreender a gestão do clima entre alunos, profissionais da educação e famílias, revelou diversas outras constatações importantes:

  • 67,9% dos gestores entrevistados relatam desafios na aproximação entre escola, famílias e comunidade;
  • 64,1% indicam entraves na construção de bons relacionamentos entre estudantes;
  • 60,3% mencionam dificuldades para desenvolver o sentimento de pertencimento dos alunos;
  • 60,3% reconhecem entraves na relação estudantes–professores;
  • 49% apontam desafios ligados à promoção do sentimento de segurança entre estudantes.

Os pesquisadores também investigaram a organização das unidades de ensino para a construção de um ambiente escolar positivo.

O estudo aponta que mais da metade das escolas (54,8%) nunca implementou um diagnóstico estruturado do clima escolar.

Para os responsáveis pelo levantamento, essa etapa diagnóstica é "essencial para orientar políticas de convivência e aprendizagem".

Adicionalmente, foi constatado que mais de dois terços (67,6%) das instituições de ensino contam com uma equipe dedicada às ações de melhoria do clima escolar.

Nos 32,4% restantes, onde não há equipe específica, a responsabilidade por essas ações recai diretamente sobre a gestão escolar.

Adriano Moro ressalta a frequente sobrecarga enfrentada pelos profissionais em muitas escolas.

"A gestão escolar frequentemente se depara com múltiplas urgências simultâneas", observa. Consequentemente, as equipes tendem a focar mais na resolução de problemas imediatos do que em estratégias preventivas e planejadas.

A relação entre clima escolar e aprendizagem

O pesquisador descreve a conexão entre um clima escolar positivo e o desempenho pedagógico como "muito forte".

De acordo com Moro, o ambiente nas instituições de ensino impacta diretamente tanto o bem-estar da comunidade escolar quanto o processo de ensino-aprendizagem.

"Para que a aprendizagem se concretize com qualidade e equidade, é imprescindível que os estudantes se sintam acolhidos", afirma.

"Quando os estudantes se sentem respeitados e livres do temor de cometer erros, eles demonstram melhor desempenho na aprendizagem e desenvolvem suas habilidades com maior confiança", complementa.

Grupo de trabalho e o combate à violência

A pesquisa da FCC, realizada entre março e julho de 2025, coletou dados em escolas de dez estados brasileiros: Amazonas, Bahia, Ceará, Espírito Santo, Minas Gerais, Pará, Pernambuco, Rio de Janeiro, Sergipe e São Paulo.

A divulgação do levantamento da FCC e do MEC coincide com a semana em que o governo federal restabeleceu um Grupo de Trabalho (GT) com o objetivo de subsidiar políticas de combate ao bullying e ao preconceito no âmbito educacional.

Este GT, composto por áreas técnicas do MEC, possui um prazo inicial de 120 dias para a apresentação de um relatório contendo suas conclusões e propostas elaboradas.

FONTE/CRÉDITOS: Bruno de Freitas Moura - Repórter da Agência Brasil