A plataforma Facebook falhou em conter a veiculação de desinformação eleitoral ao aprovar mais da metade dos anúncios antidemocráticos submetidos em um teste recente no Brasil. O levantamento foi divulgado pela ONG Anistia Internacional nesta terça-feira (25), a 40 dias do primeiro turno das eleições gerais.
Ao todo, a organização submeteu 15 publicações pagas direcionadas a brasileiros com idade para votar, a partir dos 16 anos. Desses conteúdos em português, 14 continham dados intencionalmente falsos e apenas um apresentava tom neutro.
A Anistia Internacional dividiu as investidas em três eixos principais: deslegitimação das instituições e urnas, criação de inimigos políticos e estímulo ao autoritarismo sob a justificativa de segurança pública. Uma das peças vetadas pelo TSE, mas aceita pela rede, pregava uma intervenção militar no país.
Oito anúncios aprovados
Dos 14 materiais antidemocráticos programados para exibição futura, oito receberam sinal verde do sistema automatizado da plataforma de propriedade da Meta. A ONG garantiu o cancelamento preventivo antes que os posts chegassem ao público.
Curiosamente, os sete anúncios rejeitados não foram barrados por disseminar inverdades. A plataforma justificou a recusa citando exigências cadastrais para propaganda política e social, solicitando verificação de identidade dos organizadores.
Falhas no sistema de moderação
Para Jurema Werneck, diretora-executiva da Anistia Internacional Brasil, a incapacidade dos algoritmos em reconhecer abusos é alarmante. A dirigente ressaltou que a Meta continua lucrando com engajamento publicitário enquanto falha na contenção de danos à democracia.
A Meta acumula bilhões em faturamento global oriundo de anúncios em serviços como Instagram e WhatsApp. Paralelamente, a ONG alertou que as submissões foram feitas a partir de Londres sem VPN, evidenciando o risco de interferência externa sem checagem prévia.
Ummar Bashir, especialista em inteligência artificial e direitos humanos da ONG, enfatizou que o cenário coloca em dúvida a consistência das salvaguardas eleitorais adotadas pela big tech no ecossistema digital.
Respostas da Meta e normas do TSE
Em resposta, a Meta declarou que a pesquisa usou uma amostra reduzida de posts que sequer foram veiculados. A empresa alegou utilizar checagens em múltiplas etapas e reafirmou investimentos contínuos para garantir a integridade do processo eleitoral brasileiro.
Pelas regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), contudo, plataformas digitais devem atuar preventivamente. As resoluções do órgão exigem a remoção ativa de alegações falsas que descredibilizem o sistema de votação, dispensando inclusive a necessidade de ordem judicial prévia.