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Sexta-feira, 30 de Outubro 2026
Economia

Economistas contestam uso de corte de gastos para conter dívida pública

Especialistas alertam que juros elevados são a causa real do endividamento brasileiro e criticam exigências por redução nas despesas sociais.

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Economistas contestam uso de corte de gastos para conter dívida pública
© Antonio Cruz/Agência Brasil
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Diante do avanço do endividamento no Brasil, especialistas ouvidos pela Agência Brasil contestam a tese de que a contenção de despesas é a única solução para controlar a dívida pública. Para heterodoxos e desenvolvimentistas, a expansão do indicador — que saltou de 71,7% do PIB em 2022 para 82,9% em agosto de 2026 — decorre prioritariamente dos juros altos aplicados pelo Banco Central.

Economistas apontam que a exigência do mercado por um ajuste fiscal baseado em cortes reduz verbas destinadas a áreas fundamentais. Setores como saúde, educação, previdência e assistência social seriam os mais prejudicados caso a União reduza seus gastos primários.

Estudos do Instituto Fiscal Independente (IFI) embasaram um artigo da revista Forbes que sugeriu um corte de R$ 450 bilhões. A discussão ganhou tom político após menções a propostas de redução de R$ 250 bilhões na campanha presidencial, gerando embates sobre o impacto nos benefícios sociais.

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Ausência de risco de calote

A professora do Instituto de Economia da Unicamp, Simone Deos, descarta o perigo de calote ou disparada inflacionária. Segundo ela, por ser emitida em moeda nacional, a dívida interna não oferece riscos reais de calote, ao contrário do que ocorreria com débitos em moeda estrangeira.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Fernando Henrique Lemos Rodrigues, concorda que o indicador está em níveis aceitáveis se comparado a parâmetros internacionais, não devendo ser tratado como a prioridade fiscal mais urgente do país.

O economista critica também comparações simplistas do orçamento do Estado com o de uma família. Ele ressalta a capacidade do governo de arrecadação, de rolagem da dívida e de obtenção de receitas via empresas estatais.

Cenário internacional e o impacto dos juros

Dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de 2024 mostram que economias consolidadas ostentam índices superiores ou semelhantes aos do Brasil. É o caso do Japão (236%), Estados Unidos (120%), Itália (135%), Reino Unido (101%), Canadá (110%) e Índia (81,2%).

Para Simone Deos, o verdadeiro entrave é a fatia do orçamento consumida no pagamento de juros a rentistas. Com taxa de juros real de 8,45%, a maior do mundo segundo a Moneyou, o Brasil gastou R$ 1,1 trilhão em juros em 12 meses, elevando o peso da dívida.

Fernando Rodrigues avalia que a cobrança por corte de gastos funciona como uma estratégia do mercado para justificar a manutenção da taxa Selic elevada. Segundo o especialista, o Banco Central permanece condicionado às pressões das grandes instituições financeiras.

Caminhos alternativos para a estabilização

Como alternativa ao corte social, a professora da Unicamp defende o uso estratégico de reservas internacionais e intervenções no câmbio para conter a inflação e permitir a queda dos juros, estabilizando o endividamento sem penalizar investimentos públicos essenciais.

Rodrigues acrescenta que fortalecer o orçamento social e investir em estatais gera emprego, renda e novos investimentos que retornam ao caixa público na forma de arrecadação, promovendo o desenvolvimento sustentável do país.

FONTE/CRÉDITOS: Lucas Pordeus León - Repórter da Agência Brasil
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