O Brasil ocupa a última posição em um dos principais levantamentos internacionais sobre valorização docente, evidenciando um cenário preocupante para o futuro da educação. De acordo com o Global Teacher Status Index 2018, o país aparece na 35ª colocação entre 35 nações avaliadas, com apenas 1 ponto em uma escala de 0 a 100.

O distanciamento brasileiro se amplia quando comparado a países da América Latina, como Panamá, Chile, Peru, Colômbia e Argentina, que apresentam níveis significativamente mais altos de prestígio da profissão. Em nações desenvolvidas, o status do professor se aproxima ao de carreiras como medicina e engenharia - realidade ainda distante do cenário nacional.

Embora o Global Teacher Status Index tenha sua última edição publicada em 2018, estudos mais recentes indicam que o cenário de desvalorização docente no Brasil permanece crítico. Relatórios internacionais divulgados nos últimos anos, como o Global Status of Teachers, da Education International, e o Relatório Global sobre Professores, da UNESCO, apontam para a continuidade de desafios estruturais, como a baixa atratividade da carreira, a dificuldade de retenção de profissionais e a perda de interesse entre os jovens.

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Segundo Antonio Esteca, especialista em avaliação e regulação da educação superior, avaliador do Inep/MEC e CEO da Faculdade Metropolitana do Estado de São Paulo, a desvalorização da carreira docente no Brasil é estrutural e impacta diretamente a qualidade do ensino. “O professor perdeu relevância social ao longo das últimas décadas e isso não é apenas uma percepção simbólica. Trata-se de um problema que afeta toda a cadeia educacional, desde a formação até os resultados de aprendizagem”, afirma.

A percepção negativa da profissão também influencia as escolhas das novas gerações. Segundo o Relatório Global sobre Professores 2024, apenas 5% dos jovens brasileiros de 15 anos demonstram interesse em seguir a docência. O dado reflete não apenas a baixa atratividade da carreira, mas também a ausência de incentivo no ambiente familiar.

“O jovem não se vê representado na profissão e, muitas vezes, não encontra estímulo nem dentro de casa. Quando a carreira não é valorizada social e economicamente, deixa de ser uma opção viável para as novas gerações”, avalia Esteca.

Corpo docente


Além da baixa atratividade, o país enfrenta um processo acelerado de envelhecimento do corpo docente. Entre 2009 e 2021, a proporção de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto o número de profissionais com mais de 50 anos cresceu 109%, sinalizando um possível apagão geracional.

A escassez de profissionais qualificados já impacta diretamente o ensino. Em áreas mais vulneráveis, como escolas rurais, 41% dos professores de matemática não possuem formação específica na disciplina que lecionam, o que compromete o aprendizado dos alunos.

Para Esteca, o problema vai além da formação individual e está ligado à estrutura do sistema educacional. “Quando o país não consegue atrair e reter talentos para a docência, o impacto aparece nos indicadores de aprendizagem. É um ciclo que se retroalimenta: baixa valorização gera menor interesse, que resulta em perda de qualidade e, consequentemente, reforça a desvalorização”, explica.

Outro ponto crítico está na eficiência do sistema educacional. Ao relacionar os investimentos realizados com os resultados obtidos em avaliações internacionais, o Brasil aparece atrás de países como Chile e Colômbia, demonstrando dificuldades em transformar recursos em desempenho.

Diante desse cenário, especialistas apontam para a necessidade de mudanças estruturais. “A valorização do professor precisa sair do discurso e se materializar em políticas públicas consistentes. Isso inclui remuneração adequada, plano de carreira e condições reais de trabalho. Sem isso, não há como sustentar um projeto educacional de longo prazo”, conclui Esteca.

FONTE/CRÉDITOS: ASSESSORIA