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Neste sábado (16), a Avenida Paulista, em São Paulo, foi palco de um significativo ato que reuniu o Cordão da Mentira e o Movimento Mães de Maio para rememorar os 20 anos dos brutais Crimes de Maio. A manifestação não apenas denunciou a persistente impunidade em torno dos mais de 500 assassinatos ocorridos em 2006, muitos com indícios de execução policial, mas também expressou solidariedade à causa palestina, marcando os 78 anos da Catástrofe Palestina, conhecida como Nakba.
Com forte batucada e muita música, o evento foi organizado pelo Movimento Mães de Maio e pelo Cordão da Mentira. Este último, um bloco carnavalesco, surgiu em 2012 com o propósito de escrachar e denunciar as violações de direitos humanos perpetradas pela ditadura civil-militar.
Além de clamar por justiça para os Crimes de Maio, a concentração também acolheu diversos palestinos que protestavam contra a Nakba. Este termo se refere ao deslocamento forçado da população palestina durante a criação do Estado de Israel, evento que completou 78 anos.
Tradicionalmente, o Cordão da Mentira desfila no dia 1º de abril, data que remete ao golpe de 64. Contudo, para sublinhar os 20 anos dos Crimes de Maio, que ainda carecem de responsabilização, o Cordão optou por sair novamente às ruas neste ano.
“Nosso cortejo é denúncia, é memória viva, é grito coletivo contra o esquecimento e a injustiça. Porque lembrar é enfrentar e ocupar as ruas e romper com a mentira”, declarou o grupo em comunicado divulgado nas redes sociais.
Thiago Mendonça, diretor de cinema e um dos coordenadores do Cordão da Mentira, explicou a origem do bloco. “O Cordão da Mentira é um bloco carnavalesco que sai todo dia 1º de abril, Dia da Mentira, dia do golpe de 64, para falar sobre a violência do Estado do passado e do presente. Ele começou numa roda de samba, quando vários sambistas começaram a perceber que várias pessoas que participaram da repressão participavam de seus espaços", contou.
Desde sua fundação, o Cordão da Mentira conta com a participação constante do Movimento Mães de Maio. Este movimento foi criado pelas mães das vítimas dos Crimes de Maio, tornando-se uma força vital na luta por direitos humanos.
“Elas são as madrinhas do Cordão e puxam o ato. Elas sempre estão à frente do Cordão. Para nós, esse é um dos movimentos de direitos humanos mais importantes do país”, enfatizou Mendonça.
Neste ano, o Cordão da Mentira e as Mães de Maio decidiram unificar a manifestação com a causa palestina. “Resolvemos unificar o ato pensando que a estrutura toda de repressão de Israel se reflete também na nessa máquina de moer gente que é a polícia brasileira”, disse Mendonça.
Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, esteve presente e destacou a relevância do ato. “O Cordão da Mentira é a alma do Movimento Mães de Maio. É através dele que a gente consegue ter combustível para seguir a luta o ano inteiro. O Cordão nos abraça. E ele escracha o que a gente vem denunciando. Ele também serve para a gente ter consciência de que a ditadura não acabou”, afirmou.
Assim como outras mães presentes, Débora é mãe de uma vítima da violência de Estado; seu filho, Edson Rogério Silva, foi assassinado pela polícia durante os Crimes de Maio. “Também estamos aqui pela causa palestina porque a bala que cai lá também cai aqui. A bala que mata lá também mata aqui, na nossa periferia”, ressaltou Débora.
Crimes de Maio: Um balanço da violência
Conforme o relatório “Análise dos Impactos dos Ataques do PCC em São Paulo em maio de 2006”, divulgado pelo Laboratório de Análises da Violência da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pelo menos 564 pessoas foram mortas durante as ondas de ataques dos Crimes de Maio.
O documento detalha que 505 dos mortos eram civis e 59 eram agentes públicos, em sua maioria jovens, negros e pobres. O relatório também aponta a suspeita de envolvimento de policiais em pelo menos 122 dessas execuções, evidenciando a brutalidade dos eventos.
“Os Crimes de Maio são muito simbólicos, primeiro por causa do tamanho do crime. São mais de 500 jovens assassinados em duas semanas. Esse é um dos maiores massacres urbanos da história do país. Além disso, esse ano temos mais de 60 mães de vítimas de violência do Brasil inteiro compondo o Cordão. A gente acha que essa é uma questão central para discutirmos o país que a gente quer”, comentou Mendonça.
A manifestação teve início no Parque Trianon, em frente ao Museu de Arte de São Paulo (Masp), e seguiu em caminhada até o Al Janiah, um restaurante e centro cultural palestino localizado na região do Bixiga, no centro da capital paulista.