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Nesta sexta-feira, 1º de maio, Dia Internacional do Trabalhador, milhares de trabalhadores, aposentados, estudantes e ativistas de diversas cidades brasileiras foram às ruas para defender o direito ao descanso e exigir o fim da escala 6x1, um modelo de jornada que impõe seis dias de trabalho para apenas um de folga, sem redução salarial. Em Brasília, o ato central ocorreu no Eixão do Lazer, na Asa Sul, reunindo centrais sindicais e a população em geral.
Entre as principais reivindicações, destacou-se a urgência de eliminar a jornada de seis dias de trabalho para apenas um de descanso, a chamada escala 6x1, com a garantia de que não haverá qualquer tipo de redução salarial. A capital federal foi palco de uma das mais expressivas mobilizações, concentrada no tradicional Eixão do Lazer.
A empregada doméstica Cleide Gomes, de 59 anos, marcou presença no evento acompanhada de seu neto de 5 anos, sua nora e sua mãe, de 80. A família uniu-se para cobrar a efetivação dos direitos trabalhistas.
Cleide, que hoje possui carteira de trabalho assinada, relembrou suas experiências anteriores como feirante autônoma e auxiliar de serviços gerais, períodos em que não contava com os benefícios da formalização. Ela fez questão de alertar para as irregularidades que muitas de suas colegas de profissão ainda enfrentam.
“Conheço pessoas que, agora, estão no trabalho, pois o patrão fala que hoje não é feriado, mas ponto facultativo. As coitadas não vão receber hora extra porque não sabem de seus direitos.”
O ato unificado do 1º de Maio da Classe Trabalhadora no Distrito Federal foi uma iniciativa de sete centrais sindicais, que organizaram o evento com a presença de atrações culturais e discursos em defesa da categoria.
Os organizadores do movimento argumentam que a redução da jornada de trabalho, ao contrário do que algumas empresas propagam, não prejudica a economia. Pelo contrário, defendem que ela aumenta a produtividade e representa uma questão fundamental de justiça social e um direito inalienável dos trabalhadores.
O presidente da Central Única dos Trabalhadores no Distrito Federal (CUT-DF), Rodrigo Rodrigues, apresentou exemplos bem-sucedidos de redução de jornada e criticou veementemente o que chamou de “terrorismo” praticado por parte do setor empresarial.
“O descanso é uma necessidade humana e apenas um dia de descanso coloca os trabalhadores em uma situação de desprezo e de desgaste muito grandes. Portanto, reduzir a jornada é uma [questão de] justiça social, é um direito do trabalhador ao seu tempo e é também uma medida inteligente das empresas que fazem porque elas aumentam a produtividade, ao contrário do que diz o terrorismo que está sendo pregado.”
Lutas por condições dignas
Idelfonsa Dantas, trabalhadora informal, esteve na manifestação impulsionada pela busca por melhores condições de vida para a população e, em especial, pela diminuição da carga horária de trabalho. A vendedora enfatizou a importância de uma luta contínua.
“A gente sempre busca o melhor para a população trabalhadora.”
As bibliotecárias Kelly Lemos e Ellen Rocha, aprovadas no concurso público da Secretaria de Educação do Distrito Federal em 2022, encontram-se atualmente desempregadas.
Enquanto aguardam a nomeação para suas respectivas vagas, elas se engajaram na luta pela valorização das carreiras dos profissionais da educação e pela criação de mais oportunidades no setor.
“As crianças precisam de professores mais valorizados nas escolas”, defendeu Elen Rocha.
Tempo livre e qualidade de vida
Cartazes com mensagens pelo fim da escala de trabalho 6x1 foram o catalisador para que três mulheres se unissem durante o protesto. Elas defendiam a necessidade de mais tempo livre, fundamental para o autocuidado, o lazer e a convivência familiar.
Ana Beatriz Oliveira, estagiária de psicopedagogia de 21 anos, atua no desenvolvimento de crianças neurodivergentes e beneficia-se de duas folgas semanais.
Ela narrou sua experiência de um ano em grandes centros logísticos, onde enfrentou jornadas exaustivas que frequentemente se estendiam pela madrugada e incluíam turnos dobrados. Como consequência, percebeu sérios prejuízos em sua formação acadêmica e em sua saúde física e mental.
Ao migrar para um regime de cinco dias de trabalho e dois de descanso (escala 5x2), Ana Beatriz notou significativas melhorias em sua qualidade de sono, hábitos alimentares e uma maior disposição para as atividades diárias.
“Sou extremamente contra a escala 6x1. Essa tem que acabar para ontem. Vejo que a redução da jornada de trabalho de 44 horas semanais para 40, é muito possível. Se fizer tudo direito, com o planejamento das escalas, a gente vai trabalhar mais descansado, com mais qualidade e produzir mais.”
A aposentada Ana Campania classificou a escala 6x1 como a “escala da escravidão” e participou do ato para exigir o fim da precarização da mão de obra no país.
“Hoje é o nosso dia de luta por melhores condições. Principalmente, nesse momento que querem acabar com conquistas de muitas décadas. Por exemplo, a estabilidade dos servidores, garantias da CLT [Consolidação das Leis do Trabalho].”
A dupla jornada feminina
Geraldo Estevão Coan, um sindicalista com vasta experiência na defesa dos direitos de operadores de telemarketing, compareceu ao ato desta sexta-feira com uma pauta adicional: o combate à jornada dupla, e por vezes tripla, que as mulheres trabalhadoras enfrentam no Brasil. Ele salientou a importância de os homens compartilharem as responsabilidades do cuidado com a casa e os filhos.
“O fim da escala 6x1 tem que beneficiar muito mais as mulheres. Nós, os maridos, também temos que nos conscientizar de que não é só a mulher que precisa cuidar da casa.”
Confronto em meio à manifestação
O ato em Brasília foi marcado por um incidente envolvendo manifestantes e apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro. O confronto teve início após os simpatizantes exibirem um boneco em tamanho real do ex-presidente, vestido com uma capa da bandeira do Brasil.
O gesto, realizado durante o evento público no Eixão Sul, foi interpretado como uma provocação direta pelos participantes da manifestação. Houve troca de insultos e agressões físicas, mas a Polícia Militar do Distrito Federal (PMDF) agiu rapidamente para conter o princípio de tumulto.
“Pessoas com posicionamentos ideológicos divergentes iniciaram provocações e embates verbais entre si. As equipes policiais atuaram de forma rápida restabelecendo a ordem pública sem registro de ocorrências graves”, informou a PMDF em comunicado.