Uma análise realizada pelo GLOBO em apostilas e materiais divulgados por Edcley Teixeira, apontado como responsável por vazar questões do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) de 2025 dias antes da segunda prova, traz indícios de que o estudante de Medicina também teve acesso a questões que caíram no primeiro dia da avaliação. Uma pergunta do teste de Linguagens e outra do de Ciências Humanas apresentam similaridades com conteúdos apresentados previamente pelo universitário. Do segundo dia (Matemática e Ciências da Natureza), já são pelo menos nove itens com as mesmas características — embora somente três tenham sido anulados pelo Ministério da Educação (MEC), que também acionou a Polícia Federal (PF) para apurar o episódio.

As anulações foram anunciadas na terça-feira da semana passada, quando o caso foi revelado. Outras duas perguntas possivelmente vazadas foram reveladas pelo portal g1 na manhã de ontem, com base em conversas em grupos de WhatsApp coordenados por Edcley. As outras seis foram retiradas pelo GLOBO das redes sociais do próprio estudante e também de apostilas de Medicina elaboradas por ele a que a reportagem teve acesso, sendo posteriormente comparadas ao conteúdo do Enem com o auxílio de ferramentas de inteligência artificial.

Uma das perguntas que estava no material abordava a produção de tijolos. O enunciado apresentava números idênticos e a mesma situação-problema para o cálculo em relação ao que acabaria sendo cobrado no exame. Já entre as alternativas há apenas uma diferente no conteúdo didático na comparação com as presentes na prova.

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Em nota, o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), órgão do MEC responsável pela aplicação do Enem, informou que nenhuma outra questão será anulada. “A avaliação técnica da autarquia é a de que a eventual memorização parcial e aleatória entre as milhares de questões pré-testadas para o Enem nos últimos anos não compromete a integridade do exame”, diz o texto.

Antes da aplicação da prova, o MEC testa as questões em diferentes avaliações nacionais para medir a qualidade das perguntas e seus níveis de dificuldade — o que se torna ainda mais necessário pelo modelo de correção adotado, a chamada Teoria de Resposta ao Item (TRI), que confere pontuações de acordo com o grau de complexidade. Esses são os pré-testes, dos quais Teixeira diz participar.

Já as duas questões do primeiro dia de prova presentes nas apostilas de Edcley abordam os mesmos temas que foram apresentados no Enem — uma delas relaciona os ofícios de padeiro e açougueiro ao capitalismo, e a outra trata de parasurf — e fazem perguntas semelhantes às cobradas pelo exame do MEC. No entanto, até pelo teor distinto do registrado nas provas de exatas, onde a elaboração é mais objetiva, há diferenças um pouco mais acentuadas no conjunto da obra.

Em 17 de março, Edcley também antecipou uma questão de probabilidade/lançamento de dados e outra de Química, sobre solução com concentração de 99,9%. Ambas foram cobradas na prova, no dia 16 de novembro.

Entre as orientações que enviou oito meses antes, ele afirmou: “Uma coisa eu garanto: se cair no Enem, pode marcar ‘125/216’ sem medo de ser feliz… Nem leia, não”. A mensagem foi publicada em um grupo de WhatsApp que possui centenas de alunos que contrataram seus serviços de monitoria.

Nos dois casos, ele ainda comemorou quando soube que havia “acertado” as questões. “Olha isso! Sei que todos vocês acertaram (risos) Se alguém errou, é porque não fez”, escreveu no grupo.

 

Busca e apreensão

 

Na noite da segunda-feira da semana passada, um dia depois da conclusão do Enem, imagens de uma live de Edcley circularam pelas redes sociais. Na gravação, ele aparecia dando aula em um curso pré-vestibular do qual é dono e apresentava questões praticamente idênticas às que caíram na prova. No dia seguinte, o MEC decidiu anular três questões, duas de Ciências da Natureza e uma de Matemática, e acionou a PF. No último domingo, um mandado de busca e apreensão foi cumprido na casa do rapaz, no Ceará.

— Eu quero aqui tranquilizar e dizer que o Enem continua, os dois gabaritos já foram divulgados e o resultado será divulgado em janeiro — afirmou o ministro da Educação, Camilo Santana, em um vídeo divulgado nas redes sociais na última sexta-feira, rechaçando a hipótese de anular o exame.

Para divulgar o próprio curso, Edcley afirmava que participava dos pré-testes realizados pelo Inep e conseguia lembrar de detalhes das perguntas. Com isso, conseguia antecipar o que acabava sendo cobrado.

Em 2022, o universitário publicou um vídeo “denunciando” o uso de pré-testes do Enem para ter acesso a questões que seriam cobradas no exame — exatamente a estratégia que passou a adotar a partir do ano seguinte. Na ocasião, abriu a gravação dizendo que explicaria “como os grandes cursinhos, que não posso citar nomes, ‘hackeiam’ o Enem” e classificou a prática como “vazamento”.

Edcley lembrava no vídeo que o Banco Nacional de Itens (BNI), um repositório de questões do Inep, estava sofrendo com a falta de questões — uma informação revelada pelo GLOBO no fim de 2021. Por isso, o MEC precisava pré-testar as perguntas no mesmo ano em que elas eram utilizadas no Enem. Assim, era possível conhecer o conteúdo e trabalhá-lo já para a edição seguinte do exame.

“É importante ressaltar que todas as questões são criações originais de Edcley de Souza Teixeira, embora tenham sido inspiradas em questões reais do pré-teste. Dessa forma, não há qualquer risco jurídico envolvido, uma vez que a inspiração nas questões do pré-teste não implica em cópia ou plágio, e o Inep não possui poder de censurar a memória de um estudante”, argumentava ele no documento.

Depois de a PF passar a investigar o caso, Edcley passou a alegar que as “similaridades pontuais” entre as questões que ele utilizou em aulas e as que foram cobradas no Enem eram “coincidências”. O estudante também admitiu que pagou participantes do concurso para memorizar itens da prova e repassá-los.

 

‘só este ano’

 

Como mostrou o g1, mensagens mostram Edcley oferecendo valores a partir de R$ 10, que poderiam aumentar conforme o detalhamento das perguntas. Confrontado sobre a prática, afirmou que fez isso “só este ano” e negou ter agido de forma deliberada para burlar o processo.

— Não vejo má-fé. Porque não existia nenhum termo de compromisso, nenhum termo de sigilo, não existia nem edital. Nem no processo de inscrição — disse ao “Fantástico”, da TV Globo.

Ele também afirmou ter apenas desconfiado que o concurso fosse usado pelo Inep para avaliar as perguntas, e classificou como “publicidade infeliz” o fato de ter divulgado nas redes que havia participado de um pré-teste oficial. “Era simplesmente para chamar atenção para o meu curso”, defendeu.

(*Estagiária sob supervisão de Alfredo Mergulhão)

 

FONTE/CRÉDITOS: Por Bruno Alfano, Esther Almeida, Júlia Cople e Paulo Assad - O GLOBO