O Acre enfrenta um desafio significativo para alcançar as metas de vacinação contra o HPV no Brasil, registrando em 2023 os menores índices de cobertura vacinal do país: 59% entre meninas e 50% entre meninos, bem abaixo da média nacional. Este cenário é amplamente atribuído a um incidente ocorrido em 2017, quando uma onda de desinformação associou o imunizante a efeitos adversos graves, impactando a confiança da população.

Naquele ano, 74 adolescentes apresentaram sintomas como dores de cabeça, desmaios e convulsões após serem vacinadas. Uma investigação aprofundada, no entanto, descartou qualquer relação causal com a vacina, atribuindo os casos a uma resposta de estresse psicogênico não epilético (CNEP) e, em alguns casos, a condições preexistentes como epilepsia. Apesar das conclusões científicas, a notícia se espalhou, alimentada por campanhas de desinformação.

Renata Quiles, atual coordenadora estadual do Programa Nacional de Imunizações do Acre e integrante da equipe na época, testemunhou o impacto direto. "Saímos de 14 para 127 casos notificados em 6 meses por um comportamento da massa, estimulada pelo que se veiculava na imprensa e pelo medo natural da população", relata. A repercussão nacional e a disseminação de informações falsas levaram a uma queda drástica na cobertura vacinal nos anos subsequentes.

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Estresse vacinal e desinformação

Especialistas da USP, após examinarem os adolescentes, concluíram que a maioria dos sintomas era resultado de crises psicogênicas não epiléticas (CNEP), uma resposta involuntária ao estresse, e não aos componentes da vacina. As Sociedades Brasileiras de Pediatria e de Imunizações confirmam que a CNEP é uma reação documentada a diversos imunizantes, não havendo ligação biológica com o conteúdo das vacinas.

A literatura médica tem alertado sobre a influência negativa das redes sociais na propagação de desinformação, que pode desencadear ou agravar casos de CNEP. O movimento antivacina, segundo Mayra Moura, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (Sbim), explorou o episódio no Acre para disseminar medo em todo o país, aproveitando também a resistência de alguns pais que associavam erroneamente a vacina à "sexualidade precoce".

A vacinação, que antes ocorria em escolas e tinha alta adesão, foi descontinuada. "A melhor estratégia para a vacinação de adolescente é na escola, porque o adolescente não vai ao serviço de saúde", lamenta Moura. No Acre, a cobertura vacinal despencou para menos de 10% em 2018 e 2019, um reflexo direto da desinformação e do medo gerado.

Eventos adversos: monitoramento e segurança

Tanto Renata Quiles quanto Mayra Moura enfatizam que eventos adversos são esperados para qualquer medicamento, mas são rigorosamente avaliados quanto à gravidade e ao balanço risco-benefício. A vacina contra o HPV, produzida pela MSD em parceria com o Instituto Butantan, possui uma taxa de evento adverso baixa e efetividade superior a 90%, com estudos já demonstrando queda na incidência de câncer por HPV em países que a introduziram.

A farmacovigilância no Brasil, coordenada pelo Ministério da Saúde, monitora todos os eventos supostamente atribuíveis à vacinação ou imunização (Esavis). A maioria dos casos notificados são leves e descritos nas bulas. Eventos graves são investigados a fundo para determinar a causalidade, e na maioria das vezes, a relação com a vacina é apenas temporal, não causal.

A MSD reforça que são 20 anos de estudos e acompanhamento da vacina, que é crucial na prevenção do câncer de HPV, uma doença que pode ser silenciosa. A vacina é considerada segura e eficaz, sendo um pilar na estratégia de saúde pública.

Recuperação da confiança e estratégias inovadoras

Apesar do impacto do episódio de 2017, o Acre tem trabalhado para reverter o quadro e recuperar a confiança na vacina. Profissionais de saúde têm recebido treinamento para comunicar de forma eficaz, desmistificando os efeitos adversos. "Toda essa situação poderia ter sido traumática pra mim, mas só me deu ainda mais segurança para confiar nessa vacina e continuar dizendo o quanto ela é importante para nossos jovens", afirma Renata Quiles.

Estratégias criativas, como o "Cinema da Imunização" em Porto Walter, onde adolescentes recebiam ingressos para filmes após a vacinação, têm mostrado resultados positivos. Essa iniciativa, combinada com orientação nas escolas, vacinou mais de 200 adolescentes e demonstrou ser eficaz contra a desinformação disseminada nas redes sociais.

A enfermeira Evelin Plácido, CEO da CapacitaImune, destaca a importância da comunicação: "Não adianta você ser um profissional excelente [...] se você não souber se comunicar com as pessoas. Especialmente porque a gente tem vivido um momento de alta na hesitação por causa da desinformação".

Prevenção do câncer: um objetivo urgente

A reversão dos efeitos da desinformação é possível, mas exige a combinação de múltiplas estratégias a longo prazo, segundo Mayra Moura. A vacinação contra o HPV é uma necessidade urgente, considerando que os cânceres causados pelo vírus matam cerca de 7,5 mil brasileiros anualmente, com o câncer de colo de útero sendo o mais incidente.

A vacina oferecida pelo SUS protege contra os tipos de HPV de maior risco e, com altas coberturas vacinais, a OMS considera a eliminação do câncer de colo de útero uma meta alcançável. A vacinação também reduz drasticamente outros tipos de câncer associados ao HPV, estando disponível para crianças e adolescentes de 9 a 14 anos, além de grupos específicos e para resgate vacinal de jovens de 15 a 19 anos.

FONTE/CRÉDITOS: Tâmara Freire - Repórter da Agência Brasil