Ela acorda às cinco da manhã. Arruma os filhos no escuro, deixa o almoço na panela quando tem o que deixar, fecha a porta com a chave que às vezes não existe, e vai. Vai trabalhar na casa de quem faz as leis, de quem decide o orçamento, de quem define políticas públicas que nunca chegam ao bairro onde ela mora. Volta à noite, com os pés doendo e a cabeça cheia de contas que não fecham. E torce para que os filhos ainda estejam onde ela deixou.

Essa é a rotina de milhares de mulheres em Mato Grosso, e de milhões em todo o Brasil. Mães solo, na maioria negras e pobres, que criam filhos entre a jornada de trabalho e a ausência forçada. Mulheres que muitas vezes precisam decidir entre pagar o aluguel ou estar em casa. Que não sabem se o filho comeu, se foi para a escola, o que fez durante o dia. E que, um dia, recebem a notícia que nenhuma mãe deveria receber: o filho foi levado pelo crime. Não raramente, o crime foi buscá-lo justamente no horário em que ela não estava.

Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o Brasil tem mais de 10,3 milhões de lares chefiados por mães que vivem com os filhos sem cônjuge. Pesquisa do Instituto Brasileiro de Economia da FGV (FGV IBRE) aponta que esse número chegou a 11,3 milhões no final de 2022, crescimento de 17,8% em uma década. Noventa por cento desse aumento é explicado pelas mães solo negras, cujo número passou de 5,4 milhões para 6,9 milhões no período. Essas mulheres ganham, em média, 39% menos do que homens casados com filhos e trabalham majoritariamente na informalidade.

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O dado mais revelador sobre o isolamento dessas famílias: 72,4% das mães solo vivem apenas com os filhos, sem parentes próximos que possam dividir as responsabilidades. Mais de 54% têm, no máximo, o ensino fundamental completo. Entre as negras, esse índice sobe para 58,7%. São mulheres que, sem qualificação formal, aceitam os empregos que aparecem: diaristas, empregadas domésticas, cuidadoras, auxiliares de limpeza. Saem cedo. Voltam tarde. Deixam os filhos, literalmente, nas mãos de Deus.

Em Mato Grosso, os dados da FGV IBRE indicam que 11,8% dos domicílios são chefiados por mães solo. Aplicada à população do Estado, essa proporção representa dezenas de milhares de lares onde uma mulher sustenta e cria tudo sozinha, sem dividir com ninguém.

Mato Grosso: a violência que não recua

Nesse contexto de abandono estrutural, o crime organizado encontra terreno fértil. E Mato Grosso está no centro dessa tragédia. Segundo o 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o Estado ocupa o 7º lugar nacional em mortes violentas intencionais, com taxa de 29,8 por 100 mil habitantes em 2024, quase 50% acima da média nacional de 20,8. Em números absolutos, foram 902 mortes em 2024. Na letalidade policial proporcional, Mato Grosso aparece em 5º lugar, com taxa de 5,6 por 100 mil, quase o dobro da média do país.

No cenário nacional, o mesmo Anuário registrou 44.127 mortes violentas intencionais em 2024, queda de 5,4% em relação ao ano anterior. Mas a distribuição racial piorou: 79% das vítimas eram negras, contra 78% em 2023. Quase metade dos assassinados, 48,5%, não havia completado 30 anos. E a violência contra crianças e adolescentes cresceu na contramão do restante: 2.356 mortes de pessoas de 0 a 17 anos, alta de 3,7%. Entre adolescentes negros de 12 a 17 anos, 85,1% das vítimas eram negros.

Em Mato Grosso, as facções criminosas avançam sobre territórios que o Estado abandonou há décadas. Bairros periféricos de Cuiabá e Várzea Grande, onde vivem justamente as mães que saem às cinco da manhã, se tornaram zonas de disputa armada. Jovens sem escola, sem lazer, sem perspectiva são aliciados enquanto as mães estão ausentes. O recrutamento acontece na esquina, na hora do intervalo, no celular. Quando a mãe percebe, já é tarde.

Os 89 filhos que ficaram e as 41 mães que eram

O dado mais brutal sobre Mato Grosso em 2024 não está nos homicídios. Está no feminicídio. Segundo dados da Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso, referenciados no Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025, o Estado registrou a maior taxa de feminicídios do país: 2,5 casos a cada 100 mil mulheres, quase o dobro da média nacional de 1,4. Foram 47 mulheres assassinadas pela condição de serem mulheres. Das 47, 41 eram mães. Os crimes deixaram 89 filhos órfãos. Dezessete desses filhos eram também filhos dos próprios assassinos, que em oito casos cometeram suicídio logo em seguida.

Cuiabá, Sinop e Várzea Grande lideraram o ranking estadual de feminicídios, com quatro casos cada. Dos 47 casos registrados, 46 mulheres não haviam pedido medidas protetivas. Apenas 17% denunciaram os autores antes de serem mortas. O silêncio é, muitas vezes, produto do medo de perder o emprego, o teto ou a guarda dos próprios filhos.

Em 2025, o Observatório Caliandra do Ministério Público de Mato Grosso registrou 28 feminicídios somente até junho. Mais de 70% dos crimes ocorreram dentro das próprias casas das vítimas. Em 75% dos casos, a motivação foi machismo, ciúme ou sentimento de posse.

A mãe do traficante: o luto que a sociedade não reconhece

Enquanto o feminicídio arranca mães de seus filhos, outro tipo de perda igualmente devastadora se abate sobre as famílias periféricas: a morte dos filhos pelo crime. E aqui começa um segundo calvário, o do julgamento público. A mãe que perde o filho para o tráfico não recebe flores nem condolências. Recebe perguntas: "Mas o que você fez de errado?""Por que não estava em casa? "A culpa é sua."

Pesquisadores chamam de "luto sem direitos" o sofrimento que não pode ser publicamente reconhecido nem lamentado. Para essas mulheres, a dor vem misturada com medo, vergonha imposta e isolamento crescente. Estudos em saúde pública e psicologia publicados pelo SciELO mostram que praticamente todas desenvolvem sofrimento mental persistente: ansiedade, síndrome do pânico, insônia, estresse pós-traumático e depressão. Em geral, o pai some. São elas que ficam. São elas que vão aos institutos médico-legais identificar o corpo, que tentam reconstruir, para si mesmas e para o mundo, quem o filho era antes daquilo.

O perfil do jovem recrutado pelo crime não é o de quem rompeu com a família. A pesquisa Raio-X da Vida Real, do Instituto Data Favela e da CUFA, ouviu 3.954 pessoas envolvidas com o tráfico em 23 Estados, entre agosto e setembro de 2025. Para 43% delas, a mãe é a pessoa mais importante de suas vidas. Somando avós, tias e companheiras, as referências femininas chegam a 51% dos vínculos afetivos mais citados. Apenas 22% concluíram o ensino médio. Quando perguntados o que fariam diferente, 41% responderam: teriam estudado mais. E 68% disseram não sentir orgulho do que fazem.

"Essas pessoas não entram para este contexto porque querem, mas por necessidade", afirmou Bruna Hasclepildes, coordenadora da pesquisa. O jovem que entra para o crime não rompeu com a mãe. Muitas vezes, foi aliciado no único horário em que ela não estava: durante o dia, enquanto trabalhava para pagar o aluguel.

Do luto à resistência

Diante do abandono institucional, algumas dessas mulheres encontraram umas nas outras a força para continuar. Surgiram em todo o Brasil coletivos que transformaram o luto em luta: as Mães de Manguinhos, no Rio de Janeiro; o Movimento Mães pela Paz, em Goiás, nascido após a Chacina Solar Bougainville, quando policiais militares mataram quatro jovens amigos no bairro que deu nome ao caso; e o Movimento Independente Mães de Maio, em São Paulo, criado após o maior massacre em período democrático do país, em 2006.

"Uma vai apoiando a outra e uma vai se espelhando na outra nas formas de resistir emocionalmente", descreveu a psicóloga Gabriela Ashanti, do Instituto da Mulher Negra, em entrevista à Agência Brasil. Essa rede de apoio, erguida sem recursos públicos e à margem de qualquer política oficial, tem sido o principal mecanismo de sobrevivência psicológica dessas mulheres. Ao se encontrarem, percebem que o que vivem não é desvio individual, mas a marca de um Estado que decide, sistematicamente, a quais famílias vai chegar.

No Dia das Mães, as vitrines se enchem de flores e os perfis nas redes transbordam de gratidão. Para essas mulheres, maio é um mês de memória e de indignação. Elas não pedem homenagem fácil. Pedem que a sociedade pare de culpá-las e comece a fazer as perguntas certas: por que o Estado abandona certas famílias antes mesmo de o crime chegar? Por que uma mãe que trabalha 12 horas por dia na casa de alguém precisa escolher entre comer e vigiar o filho? Por que o luto de algumas mães é considerado legítimo, e o de outras, merecido?

Enquanto essas perguntas não tiverem resposta, haverá mães acordando antes do sol em Cuiabá, em Várzea Grande, em cada bairro pobre deste país, deixando os filhos entregues à sorte e rezando para que o crime não chegue antes delas.

FONTES

IBGE. Censo Demográfico 2022: arranjos domiciliares. agenciadenoticias.ibge.gov.br

FGV IBRE. Feijó, J. Arranjos Familiares e Mercado de Trabalho: mães solo no Brasil, 2012-2022. blogdoibre.fgv.br e portal.fgv.br, maio de 2023.
Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2025 (dados de 2024). Publicado em julho de 2025.

forumseguranca.org.br

Polícia Judiciária Civil de Mato Grosso. Mortes Violentas de Mulheres e Meninas em Mato Grosso por razões de gênero 2024. Diretoria de Inteligência. pjc.mt.gov.br

Ministério Público de Mato Grosso. Observatório Caliandra: feminicídios em Mato Grosso, janeiro-junho de 2025. mpmt.mp.br

Instituto Data Favela / CUFA. Raio-X da Vida Real. 3.954 entrevistados em 23 estados. Agosto-setembro de 2025. Divulgada em novembro de 2025.

Araújo et al. (2022). Mães em luto e saúde mental: sofrimento de mães de jovens negros mortos pela violência. SciELO Brasil.

FONTE/CRÉDITOS: Edina Araújo/VGN