Espaço para comunicar erros nesta postagem
Regata vermelha, cabelo molhado, cara lavada. A fala é tranquila, o sorriso chega aos olhos. Nos primeiros minutos, responde às perguntas com a atenção de quem está acostumada a dar entrevistas. Mas a formalidade dura pouco. A conversa ganha intimidade e ela passa a falar de si com uma franqueza que desarma. Sem produção, na tela do computador, está ainda mais bonita do que em HD. E isso é muito pouco diante de tudo o que Débora Nascimento tem para mostrar.
Aos 41 anos, a atriz, que já viveu dois casamentos e mora com Bela, a filha de 8, do relacionamento de quatro com o ator José Loreto, não está preocupada em corresponder às expectativas de ninguém, a não ser às próprias. Solteira no Rio de Janeiro, quando tem vontade de sair para dançar, escolhe a noitada mais divertida, muitas vezes em lugares onde ninguém imaginaria encontrar uma celebridade. Prende os cabelos, coloca os óculos e se joga na pista.
Também não dispensa um boteco com cerveja e frango a passarinho, adora viajar, conhecer pessoas, experimentar coisas novas. “A Débora é um furacão, uma pequena gigante”, diz a atriz Thaila Ayala, amiga desde os tempos em que eram modelos em São Paulo. “Está sempre em movimento, desbravando as oportunidades que a vida dá. Tem fome de viver, curiosidade pelo mundo, pelas pessoas.”
Nem os tropeços param essa geminiana com ascendente em leão. “Não tenho medo de ser. Por mais que bata a cabeça na parede, sofra e chore, daqui a pouco viro a página e já estou sorrindo de novo.”
A mesma liberdade orienta as escolhas profissionais. Débora já não sente necessidade de aceitar um trabalho apenas porque surgiu uma oportunidade. Recusa personagens com os quais não se identifica, independentemente de onde sejam produzidos. “O que ele movimenta internamente em mim? O que está dizendo? Para que existe?”, questiona, diante de um convite.
Após sete anos longe dos folhetins, estava pronta para voltar à televisão. Na nova trama das seis, “Lá na minha terra”, que estreia nesta segunda-feira, dia 9, interpreta Delfina, advogada que deixa São Paulo e se muda para Lavra Seca, cidade fictícia do Nordeste. “É uma mulher forte, maternal, sensível, dona dos próprios desejos”, conta.
A vontade de reencontrar o público pesou na decisão. “As pessoas me param na rua e dizem: ‘Você faz falta!’” Mas o retorno trouxe uma surpresa. “Nunca me diverti tanto fazendo uma novela. Acho que sou outra atriz. Chego com outras experimentações, outra bagagem.”
A comparação com Tessália, personagem que a projetou em “Avenida Brasil”, em 2012, é inevitável. Fora do elenco da continuação, Débora não esconde a curiosidade. “Estou ansiosa para assistir ‘Avenida Brasil 2’”. Na trama original, reconhecia-se na timidez daquela jovem que chegava a um mundo desconhecido. Quatorze anos depois, encontra algo de si em Delfina, na trama escrita por Mário Teixeira e dirigida por Allan Fiterman. “Ela tem muito da Débora de agora, já segura.”
Isso não significa que não sinta um friozinho na barriga. “Tenho uma série de medos, mas eles são menores do que a minha coragem”, diz a atriz, que aprendeu cedo a enfrentar o desconhecido. Aos 15, saiu da casa da mãe, na periferia de São Paulo, para trabalhar como modelo. “Fazia de tudo para agradar, para conseguir. Sempre tive aquela coisa de ‘tem que dar certo, não tem outra opção’.”
A oportunidade apareceu nas páginas de uma revista Capricho. O dinheiro era curto e a publicação só chegava às suas mãos de vez em quando. Foi numa dessas edições que seu avô e padrinho encontrou o anúncio de um concurso de modelos e mandou uma foto da neta. Débora foi uma das 15 meninas contratadas pela agência Elite. “Foi a chance que tive de expandir meus horizontes, a percepção de mim mesma e do mundo”, lembra.
Não que tenha sido fácil. Embora muito magra, ouvia que precisava reduzir o quadril de 91 para 89 centímetros e, aos 16, desenvolveu anorexia. Mas se agarrou à possibilidade de conquistar a independência. Morou na China, na Tailândia, no Chile e na África do Sul, além de passar pelo México. Entre uma temporada e outra, voltava ao Brasil por dois ou três meses. Até entender que seu futuro não estava nas passarelas. “Não queria ser apenas um cabide passando fome e frio.”
A vontade de atuar é anterior à carreira de modelo. Débora tinha cerca de 10 anos quando assistiu na escola a uma encenação educativa em que os alunos interpretavam objetos de higiene pessoal. “Queria poder ser uma pasta, uma escova de dentes”, diverte-se.
Mais tarde, começou a fazer algo parecido diante das câmeras fotográficas. A cada troca de roupa, assumia uma personalidade. Com o dinheiro que ganhou, estudou três anos com Fátima Toledo, passou pela escola de teatro Célia Helena e foi chamada para a oficina de atores da Globo. Vieram os primeiros papéis na TV e, em 2008, uma participação na produção internacional “O Incrível Hulk”.
A carreira no cinema segue movimentada. Débora tem três filmes para estrear: “A arte do roubo”, de Marcos Jorge, em que lidera uma gangue; “Bunny-Man”, produção italiana de Andrea Iervolino com Bella Thorne; e “Eternamente sua”, de Sérgio Machado.
Trabalhar com Sérgio era sonho antigo. Quando assistiu a “Cidade baixa”, saiu do cinema com o desejo de ser dirigida por ele. Tempos depois, o cineasta viu “Pacificado” e ficou intrigado com a atriz que interpretava tão bem uma moradora de favela. Achava que o elenco havia sido escolhido na própria comunidade, em Santa Teresa. “O melhor elogio que se pode fazer a um ator é confundir ele com alguém de verdade”, diz o diretor.
No thriller psicológico, com lançamento previsto para 2027, Débora contracena com Bruno Gagliasso e Marcélia Cartaxo e interpreta Kiki, uma modelo e influenciadora de moda. “Ela tem uma beleza meio hipnotizante e sua qualidade cinematográfica é surpreendente”, elogia Sérgio.
Com Gael García Bernal, estreou recentemente no Festival de Veneza a comédia dramática “Hombre al agua”. Dirigido e protagonizado pelo mexicano, o longa traz Débora como Fabiana, uma atriz brasileira. O convite veio acompanhado de uma frase que nunca vai esquecer: “Você é o Brasil que eu quero”. Para quem começou a carreira acreditando que precisava aceitar todas as oportunidades, participar de um projeto internacional por escolha tem um significado especial. “Quando Gael me chamou, tive a sensação de estar exatamente onde queria”, conta.
Fora dos sets, celebra as transformações de um corpo que já foi motivo de sofrimento. A maternidade teve papel importante. “Meu corpo mudou para melhor. Estou evoluindo na percepção do prazer de ser quem sou.”
Com Bela, procura ensinar pelo exemplo. Mostra a cicatriz da cesariana, explica de onde vieram as outras e conversa sobre estrias e marcas sem julgamentos. “Não quero que minha filha, tão parecida comigo e sempre comparada a mim, ache que sou perfeita e se cobre uma perfeição”, diz. “Faço questão de deixar claro. A mamãe está tentando. A mamãe erra, a mamãe chora, a mamãe é vulnerável, mas a mamãe se ama.”
A chegada da filha também mudou a maneira como enxerga a própria mãe, que trabalhou como manicure, faxineira e operária para sustentar a família. “Toda maternidade é uma maternidade possível. É aquela que cada mulher consegue entregar”, diz. Hoje, compreende melhor as dificuldades que a mãe enfrentou e se emociona ao vê-la construir com Bela uma relação diferente daquela que tiveram na infância. “Não gosto da palavra perdão. Gosto de falar em compreensão, acolhimento.”
Revisitar a própria história tem sido um exercício de criação: ouviu tantas vezes os amigos dizerem que sua vida daria uma novela que começou a escrever para o audiovisual. “Todas têm um tiquinho de autobiografia”, diz.
No roteiro da própria vida, há espaço para tudo. A menina que um dia se encantou com objetos de higiene numa apresentação escolar cresceu sem perder a capacidade de enxergar o extraordinário no simples. Hoje, tem a grandeza e a liberdade para ser o que bem entender. Inclusive uma escova de dente.