A recente proibição das plataformas de apostas online pelo governo federal trouxe alívio para milhares de brasileiros que enfrentam o vício em apostas. A medida provisória, assinada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, busca conter uma grave crise social e financeira que devastou famílias em todo o país, deixando um rastro de endividamento e adoecimento mental.
Para Kaio*, de 42 anos, a decisão representa uma chance de recomeço. Após perder sua casa, carro e emprego devido ao jogo, ele hoje vive abrigado no interior de Goiás. O medo de cobradores o afastou dos familiares, mas o levou a buscar tratamento médico e psiquiátrico em um Centro de Atenção Psicossocial (Caps).
A trajetória das bets no Brasil
Embora autorizadas em 2018, no fim do governo de Michel Temer, as plataformas operaram sem regulamentação até o fim de 2023. Esse vácuo normativo de cinco anos permitiu a proliferação de publicidades agressivas, sem alertas reais sobre os riscos do jogo, agravando a vulnerabilidade dos usuários.
Segundo dados do Comitê Nacional de Secretários de Fazenda (Comsefaz), as perdas financeiras das famílias brasileiras somaram R$ 62,5 bilhões apenas no último ano. Esse montante bilionário representa uma expressiva fatia do orçamento doméstico, transferida diretamente para as empresas operadoras por meio de transações instantâneas como o Pix.
O impacto nos jovens e na saúde mental
A crise atinge também os mais jovens. Pesquisas apontam que cerca de 20% dos estudantes do ensino fundamental e médio já realizaram apostas online, alguns iniciando aos 11 anos de idade. Especialistas alertam que o cérebro adolescente, ainda em desenvolvimento, é altamente suscetível aos estímulos rápidos de recompensa oferecidos pelas plataformas.
O adoecimento psíquico é outro fator alarmante. A psiquiatra Katia Branco, do Hospital das Clínicas de São Paulo, aponta que o desespero financeiro frequentemente evolui para quadros graves de ansiedade e ideação suicida. O isolamento social e o aumento no consumo de álcool são sinais de alerta frequentes entre os dependentes.
Apoio médico e busca ativa
Diante do cenário de saúde pública, o Sistema Único de Saúde (SUS) vem expandindo os canais de atendimento especializado. O Ministério da Saúde, sob a gestão de Alexandre Padilha, planeja implementar ações de busca ativa para identificar e oferecer tratamento psicológico gratuito aos apostadores mais afetados pela dependência.
*Os nomes reais foram preservados a pedido dos entrevistados.