A proximidade das eleições de 2026 no Brasil trouxe um cenário de alerta para a sociedade civil, que vê a atual crise institucional enfraquecer o debate sobre propostas de campanha essenciais para o país. Representantes de diversas entidades afirmam que os conflitos envolvendo o Supremo Tribunal Federal (STF) e outras instituições sequestraram a atenção pública, deixando em segundo plano os problemas estruturais nacionais.
Para Samira de Castro, presidenta da Federação Nacional dos Jornalistas (Fenaj), a cobertura midiática e as discussões cotidianas foram totalmente absorvidas pelos desdobramentos do Judiciário. Segundo ela, esse cenário impede que a população analise com clareza os projetos dos candidatos.
Na visão de Francilene Garcia, presidenta da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), temas vitais como o desenvolvimento científico e tecnológico foram ignorados. Ela pontua que a estabilidade das instituições e o progresso nacional deveriam caminhar juntos na agenda política.
As entidades reconhecem a gravidade dos fatos revelados pela Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal (PF) em 2025, mas defendem que as investigações não deveriam anular o debate programático. Daniel Cara, coordenador da Campanha Nacional pelo Direito à Educação, classifica este pleito como o mais relevante desde a Constituição de 1988.
Para Cara, os candidatos parecem ignorar a urgência de debater a soberania nacional e a reorganização produtiva global. Ele lamenta que áreas estratégicas como educação, ciência e defesa estejam ausentes dos planos de governo apresentados ao eleitorado.
A presidenta do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap), Rita Serrano, destaca que pautas trabalhistas urgentes foram paralisadas. Entre elas estão o fim da escala 6x1, a geração de empregos e a regulamentação das relações de trabalho no setor público.
Serrano relata que as articulações no Congresso avançavam até o final de agosto de 2026, mas foram interrompidas pela instabilidade política. De acordo com a dirigente, a gravidade do cenário assustou a sociedade e paralisou as discussões sobre o desenvolvimento econômico.
Outro tema negligenciado é a emergência climática. Márcio Astrini, secretário executivo do Observatório do Clima, relembra as recentes catástrofes no Rio Grande do Sul e na Amazônia para criticar a omissão de candidatos que sequer mencionam ou que negam a crise ambiental.
A exploração de minerais críticos e as salvaguardas indígenas também ficaram de fora das prioridades eleitorais. Alcebias Constantino, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), ressalta que a proteção dos territórios tradicionais é fundamental para assegurar direitos básicos como saúde e educação.
Como resposta à falta de representatividade, o movimento indígena lançou 56 candidaturas para diversos cargos legislativos e executivos. Constantino explica que, embora a instabilidade política gere preocupação, as comunidades indígenas seguem mobilizadas, pois a luta pela defesa de seus direitos é permanente.
