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Nos últimos anos, o Brasil passou a conviver com uma nova forma de entretenimento que, para muitas pessoas, deixou de ser apenas diversão ou um “fézinha” e se transformou em um problema de saúde, financeiro e social. Jogos de caça-níqueis online popularizados com o nome “Tigrinho” e plataformas de apostas ganharam espaço no cotidiano de milhares de brasileiros, impulsionados pela publicidade dos influenciadores e pela promessa de ganhos rápidos. O que começa com uma pequena aposta pode evoluir para um ciclo de terror.
Segundo estudo do Banco Central divulgado em 2024, aproximadamente 24 milhões de pessoas realizaram apostas por meio do Pix em um período de seis meses. O levantamento também apontou que, em agosto daquele ano, cerca de 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família realizaram transferências via Pix para empresas de apostas, movimentando aproximadamente R$ 3 bilhões naquele mês.
A lógica dessas plataformas é baseada em séculos de estudos do comportamento humano, essas plataformas sabem manipular as expectativas de uma recompensa imprevisível que mantém um indivíduo constantemente estimulado e alimenta a esperança de que a próxima tentativa será diferente. Após uma perda, surge o desejo de recuperar o dinheiro perdido. A pessoa aposta novamente, aumenta os valores e entra em um ciclo que perde a força caso ela não ganhe novamente.
Por isso, é na vitória que escondem a pior armadilha. Sempre que vencemos nesses tipos de apostas nosso cérebro libera uma quantidade massiva de Dopamina, um neurotransmissor ("hormônio da cabeça"), gerando uma sensação de "euforia", sensação de bem estar inigualável. A pessoa passa a buscar a próxima vitória para experimentar essa sensação novamente. A incerteza sobre quando ocorrerá essa nova descarga de dopamina vicia o cérebro da mesma forma que ocorre na dependência química.
Os números aqui revelados comprovam a epidemia brasileira. Por isso, é necessário mudar a forma como a sociedade encara esse fenômeno. O vício em jogos de azar não deve ser tratado apenas como falta de responsabilidade ou força de vontade. A prevenção precisa envolver informação, educação financeira, atenção à saúde mental e mecanismos efetivos de proteção ao consumidor.
Afinal, quando o entretenimento começa a consumir a renda, os relacionamentos e a saúde de uma pessoa, já não estamos falando apenas de um jogo, mas sim de um problema social que precisa ser discutido e enfrentado antes que a promessa de ganhar mais se transforme na realidade de perder tudo.
O Centro de Atendimento Psicossocial de Rosário Oeste - CAPS, está aberto para pessoas que estão passando por problemas relacionados a jogos e apostas.
Redação de Dr Willer Zaghetto - Médico do CAPS I - Rosário Oeste
