Durante a campanha eleitoral de 2026 no Brasil, a violência política registrou um crescimento alarmante, tendo as mulheres como as principais vítimas de agressões e ameaças. Um levantamento das ONGs Terra de Direitos e Justiça Global revelou que, até o primeiro turno das eleições, em 4 de outubro, foram mapeados 134 casos desse tipo de crime em todo o país.
O cenário crítico foi ilustrado recentemente pelas ameaças de morte e de violência sexual denunciadas pela deputada federal eleita Ana Elisa (PT-MG). Do total de ocorrências registradas pelas entidades, 70 tiveram mulheres como alvo, o que representa 52,2% das vítimas. Quando analisados apenas os episódios contra candidaturas, o índice feminino sobe para 58,8%.
Desafios no ambiente digital e físico
Para Gisele Barbieri, coordenadora de Incidência Política da Terra de Direitos, o ambiente digital funciona como um terreno fértil para agressões sistemáticas facilitadas pela falta de regulação das redes sociais. Contudo, o espaço físico ainda é o mais perigoso: a maior parte dos atentados e agressões (71 casos) ocorreu diretamente nas ruas.
Subnotificação e medo de denunciar
A pesquisadora alerta que o número real de casos pode ser ainda maior devido à subnotificação. Muitas mulheres optam por não denunciar por medo de retaliações ou pela falta de respostas rápidas das autoridades policiais. Diante disso, Barbieri defende uma força-tarefa estatal para garantir punições ágeis e pedagógicas.
Crescimento em relação a 2022
Os dados mostram uma escalada na hostilidade democrática. No primeiro turno de 2022, haviam sido registrados 121 casos. Em 2026, a frequência de episódios violentos durante o período eleitoral foi cinco vezes maior do que nos meses sem disputa nas urnas, gerando rupturas preocupantes no sistema representativo.
Recortes de raça e gênero
O levantamento detalha que, entre os ataques direcionados a mulheres, 45 envolveram machismo ou misoginia, nove tiveram cunho racista e cinco foram motivados por transfobia. Além disso, as pessoas negras representaram 44,8% do total de vítimas mapeadas no período. Duas mortes de agentes políticos municipais foram confirmadas.
Glaucia Marinho, coordenadora da Justiça Global, destaca que mulheres, negros e pessoas trans enfrentam violências estruturais que vão além da disputa de ideias. Para piorar o cenário de impunidade, nenhum dos 134 casos identificados havia resultado em punição aos autores até o encerramento da coleta de dados do estudo.