O primeiro voto na Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) no julgamento do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes foi favorável à condenação dos irmãos Chiquinho Brazão e Domingos Brazão. A imputação inclui duplo homicídio qualificado e tentativa de homicídio contra a assessora Fernanda Chaves, que sobreviveu ao ataque.

Conforme a manifestação do ministro Alexandre de Moraes, que atua como relator do caso, o conjunto de evidências materiais e depoimentos coletados é substancialmente convincente para fundamentar as sentenças condenatórias.

“Tanto quem executou quanto os mandantes são responsáveis por três delitos: dois homicídios qualificados e uma tentativa de homicídio qualificado”, declarou Moraes. Ele acrescentou: “No que diz respeito a Domingos e João Francisco Brazão, não hesito em considerar a acusação totalmente procedente, abrangendo os três crimes contra a vida e a participação em organização criminosa.”

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Quanto ao réu Ronald Alves, a acusação o vincula não apenas à participação, mas também à “execução material de outras ações além do ato principal, por meio da vigilância das atividades de Marielle Franco”. Alegou-se que ele providenciou aos executores dados cruciais para a concretização dos delitos.

No que concerne a Robson Calixto Fonseca, o ministro Moraes acatou a denúncia de envolvimento e filiação a uma organização criminosa armada.

Sobre o delegado Rivaldo Barbosa de Araújo Júnior, que já chefiou a Polícia Civil do Rio de Janeiro, o ministro Moraes afirmou ter certeza de que ele recebia pagamentos de diversas milícias. Tal conduta configura os delitos de obstrução da justiça e corrupção passiva qualificada.

Contudo, o magistrado ponderou que, embora a Procuradoria-Geral da República (PGR) tenha acusado o réu de triplo homicídio – dois consumados e um tentado –, não existem “evidências concretas” da participação direta de Rivaldo nos assassinatos.

“Eu descarto a acusação de triplo homicídio, não por negar a autoria, mas por haver uma dúvida razoável, já que não há provas que confirmem a delação”, explicou o ministro em sua manifestação.

Evidências

Dentre as evidências apresentadas pelo ministro contra o grupo criminoso, destacam-se parcelamentos ilegais de solo, ligações funcionais e transações realizadas em terrenos e empreendimentos irregulares, além de “uma vasta documentação, incluindo informações sobre o automóvel empregado nos homicídios”.

No início de seu parecer, Alexandre de Moraes elencou provas materiais, tais como loteamentos clandestinos, relações profissionais e negociações em áreas e empreendimentos irregulares, acompanhadas de uma vasta documentação, que inclui detalhes sobre o veículo usado nos assassinatos, e também depoimentos.

Segundo a análise do ministro, os depoimentos de testemunhas no processo confirmaram a participação dos acusados neste e em outros delitos, motivados por “interesses econômicos e políticos”. Isso incluía a criação de “currais eleitorais” onde era vedada a campanha de políticos desvinculados da facção.

“A preservação, pela milícia, de seu controle econômico-territorial e de sua hegemonia política foram os dois fatores que guiaram os mandantes dos crimes”, argumentou Moraes. Ele detalhou que o funcionamento desse domínio territorial envolvia a exploração econômica de áreas e serviços, enquanto a dominação política impedia que outros candidatos realizassem suas campanhas, transformando a região em um “curral eleitoral”.

O ministro reforçou que as informações obtidas por meio da colaboração foram validadas por depoimentos, por uma série de acontecimentos e por perícias técnicas realizadas pela Polícia Federal (PF).

Entre os depoentes mencionados, encontra-se o ex-policial Ronnie Lessa, que confessou ter efetuado os disparos contra a vereadora e o motorista. De acordo com Moraes, Lessa teria pormenorizado as razões por trás do crime.

“Marielle pretendia combater os loteamentos irregulares da milícia e, por isso, tornou-se um obstáculo a ser removido”, declarou o colaborador em seu depoimento.

A respeito das motivações do delito, Moraes afirmou que tanto a delação premiada quanto as evidências coletadas pela PF foram ratificadas em âmbito judicial.

“As evidências colhidas durante a instrução processual penal indicam que, inicialmente, Marielle não era o alvo específico”, pontuou Moraes. Ele complementou: “Naquele instante, o objetivo era eliminar o deputado Marcelo Freixo [do PSOL, igualmente engajado no combate às milícias do Rio de Janeiro].”

Racismo e misoginia

Conforme Alexandre de Moraes, a alteração do alvo foi impulsionada por elementos misóginos e racistas. “A questão política se uniu à misoginia e ao racismo. Marielle Franco, uma mulher negra e de origem humilde, confrontava os interesses de milicianos. Na mentalidade misógina e preconceituosa dos mandantes e executores, quem se importaria? Para eles, a repercussão seria mínima”, declarou o ministro.

Rony Lessa, segundo o relato de Moraes, informou sobre a inquietação dos mandantes quanto à repercussão do crime. “Eles não antecipavam uma reação tão intensa. A partir daí, começou uma sequência de ‘queimas de arquivo’”, afirmou Moraes, citando Edimilson Oliveira da Silva (Macalé) e outros.

Macalé, um sargento reformado da Polícia Militar do Rio de Janeiro, foi assassinado em novembro de 2021, em um provável “acerto de contas”, visto que detinha conhecimento sobre a estrutura de comando da organização criminosa. A ele cabia a função de intermediar a comunicação entre os mandantes e os executores dos homicídios.

O processo judicial

O julgamento dos envolvidos nos homicídios começou na terça-feira (24), com as apresentações das alegações orais da acusação e das defesas. A sessão desta quarta-feira está reservada para a manifestação dos votos dos ministros.

Depois da manifestação de Moraes, que é o relator do caso no Tribunal, seguirão os votos dos ministros Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e, por último, o do presidente da Primeira Turma do STF, Flávio Dino. Posteriormente, o veredicto final do julgamento será anunciado.

A decisão sobre a condenação ou absolvição dos réus será tomada com base em quatro votos. Devido à transferência do ministro Luiz Fux para a Segunda Turma, que ocorreu durante o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, o colegiado não dispõe de sua composição completa de cinco ministros.

Os réus

Entre os indiciados por envolvimento no crime estão o conselheiro do Tribunal de Contas do Rio de Janeiro (TCE-RJ) Domingos Brazão; seu irmão, o ex-deputado federal Chiquinho Brazão; o ex-chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro Rivaldo Barbosa; o major da Polícia Militar Ronald Alves de Paula; e o ex-policial militar Robson Calixto, que atuava como assessor de Domingos. Todos permanecem sob prisão preventiva.

Rivaldo Barbosa é apontado como participante nos preparativos para a execução do crime. Ronald é acusado de monitorar a rotina da vereadora e de transmitir esses dados ao grupo. Robson Calixto, por sua vez, teria fornecido a arma usada no delito a Lessa.

Posicionamento da PGR

De acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR), responsável pela acusação, os réus formaram e atuaram ativamente em uma organização criminosa armada. Com o auxílio de milícias, eles cometeram crimes de associação estruturada, com uma nítida divisão de responsabilidades no Rio de Janeiro, visando obter benefícios financeiros através da prática de delitos graves, conforme a denúncia.

Ao sustentar a condenação dos cinco acusados, a PGR argumentou que o homicídio de Marielle se conecta à postura de oposição da parlamentar aos interesses do grupo político encabeçado pelos irmãos Brazão. Este grupo possui vínculos com disputas fundiárias em regiões do Rio de Janeiro dominadas por milícias.

FONTE/CRÉDITOS: Pedro Peduzzi - Repórter da Agência Brasil