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A expressão "blackface de cabelo" foi cunhada pela página Samba Abstrato na internet com o intuito de questionar a utilização de perucas ou penteados afro por indivíduos brancos durante o carnaval. De acordo com os ativistas que gerenciam a página – e que há quase uma década abordam o tema do carnaval sob a ótica de pessoas negras –, tal prática é inadequada e racista, assim como as fantasias de "nega maluca" e "indígena", que ridicularizam identidades raciais.
Com uma abordagem cômica e satírica, a página denuncia o racismo que permeia o processo de embranquecimento da festa momesca. Entre os principais sintomas desse fenômeno, eles apontam a escolha de mulheres brancas para o papel de passistas, mesmo quando não demonstram domínio do samba – ou, como ironiza o Samba Abstrato, mesmo que tenham o "samba na ponta do braço". Essa escolha, em alguns contextos, ainda é acompanhada por imitações de cabelos cacheados ou crespos.
O blackface consiste em uma prática racista na qual pessoas brancas empregam artifícios como pintar a pele de preto, usar perucas ou outros acessórios para simular de forma caricatural as características físicas de pessoas negras. O termo surgiu nos Estados Unidos, onde atores brancos utilizavam graxa, carvão e outras ferramentas para representar indivíduos negros no palco de maneira estereotipada e degradante. O "blackface de cabelo", portanto, configura-se como uma reiteração desse tipo de agressão, transformando os cabelos crespos em imitações depreciativas.
Apesar dos avanços recentes, o cabelo afro foi, por muitos anos, estigmatizado como "cabelo ruim" ou "feio". Em entrevista à Agência Brasil, a diretoria do Samba Abstrato recorda que, em razão disso, mulheres negras foram humilhadas e preteridas, por exemplo, em oportunidades de emprego. Contudo, com a chegada do carnaval, indivíduos que não se engajam na luta antirracista ou não valorizam a estética negra optam por "fantasiar-se" de "mulher preta". Para o Samba Abstrato, o blackface de cabelo é uma continuação da fantasia de "nega maluca".
“Durante o ano inteiro, mulheres advogam a estética branca, usam cabelo liso, extremamente alinhado, considerado ‘bonito’, ‘adequado’, representativo do que elas são – o que está tudo bem – mas aí, quando chega o carnaval, querem se fantasiar de mulher negra? Isso é caricato”, reflete a diretoria do Samba Abstrato, em uma resposta coletiva de seus integrantes à Agência Brasil.
“Enquanto mulheres negras são despedidas do emprego, discriminadas, impedidas de trabalhar, seja pelo crespo natural ou em outro estilo, como tranças, enquanto lutamos pela nossa vida real, outras fazem da nossa estética [negra] fantasia. Chega domingo de carnaval, último dia, tomam banho, voltam a alisar”.
Negação da presença negra
Ao analisar o embranquecimento do carnaval por meio da participação de mulheres brancas, que retira o protagonismo das passistas das comunidades, o Samba Abstrato denuncia o que o professor de jornalismo e diretor da FAAC da Universidade Estadual de São Paulo (Unesp), Juarez Tadeu de Paula Xavier, denomina de "aniquilamento social e cultural" da população negra. O professor pesquisa as origens do racismo e as consequências atuais dessa prática, incluindo episódios no carnaval.
"Existe um aniquilamento que é físico, os dados da letalidade de jovens negros mostram isso, e existe esse apagamento dos negros dos espaços de visibilidade", afirma.
A negação da beleza e o aniquilamento da cultura negra fazem parte desse processo, explica. "É a mesma proposta do pós-abolição, de negar a presença negra na construção desse país. Os negros fundaram as bases do Estado brasileiro em uma situação muito adversa", relembra o professor.
Apesar de o carnaval, como o conhecemos hoje, ser esteticamente e plasticamente voltado para a televisão, como um produto a ser comercializado, pontua Xavier, a festa carrega digitais negras.
Segundo o professor de comunicação social, as escolas de samba foram construídas e mantidas por pessoas pretas e pardas como uma forma de sobrevivência coletiva. Ele recordou que o período pós-escravidão resultou em uma "exclusão produtiva" dessa população, que ficou sem acesso à renda e ao trabalho, por exemplo.
Para Xavier, reverter esse processo exige uma estratégia ampla de combate ao racismo e à misoginia, da qual faz parte a campanha "Sem Racismo, o Carnaval Brilha Mais", do Ministério da Igualdade Racial (MIR), lançada na última segunda-feira (12), no Rio de Janeiro.
"Quando você tem uma campanha com a marca do governo federal, está em evidência uma ação política contra o racismo em espaços onde podem surgir essas manifestações", destaca.
Carnaval sem racismo
A campanha do ministério pretende divulgar, a partir de sábado (17), material educativo que alerta para práticas como injúria racial e fantasias ofensivas, além de violências simbólicas e discriminação. O material será distribuído nas principais festas de carnaval do país, incluindo os municípios que aderiram ao Plano Juventude Negra Viva.
Na visão do secretário de Combate ao Racismo do MIR, Tiago Santana, o carnaval já superou fantasias estereotipadas, mas há quem insista em tais práticas.
“Não cabem mais fantasias depreciativas sobre a cultura negra, religiões afro, personagens negras, muito menos mulheres negras. Isso não dá mais. Não é esse tipo de cultura de carnaval que o brasileiro quer”, disse.
A campanha do ministério, explica, visa enfrentar as agressões diretas, as injúrias, mas sem deixar de coibir que temas e a estética negra sirvam de “peça de chacota”.
Denuncie
Com a campanha, o ministério também busca incentivar as vítimas a registrarem as denúncias por meio do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), e da Ouvidoria do Ministério da Igualdade Racial, pelo e-mail: ouvidoria@igualdaderacial.gov.br. Ambos os órgãos podem oferecer suporte e auxiliar no encaminhamento dos casos a instâncias oficiais.
Se você for vítima, o professor da Unesp recomenda que também seja feito um boletim de ocorrência na delegacia de polícia mais próxima. “É necessário tipificar, processar, para que as pessoas respondam pela sua ação”, frisou.